terça-feira, 9 de outubro de 2018

Poesia

E agora o que faremos?
Poesia. Os canalhas
não suportam a Poesia.

(Não sei quem o disse)

Não, não quero domesticar o poema,
amainar-lhe a fúria, a mágoa, a desilusão.
Não quero encenar o verso para o encher
de uma beleza  
que muitos dizem já morta.
Não quero encobrir a faca, a ferida, o fel.

Abraço o que me vem à pena
[e sou nisso inocente]
com a estreiteza própria
do mundo que observo
e do olhar através do qual o observo.

E se não empresto à voz
o rosto mais ajustado do mundo
é por ser o poema espontâneo
e livre de jugos.

Enquanto houver asas no céu e luz
e manhãs claras e árvores
e música e crianças e sonhos, 
sem finitude a Poesia.




(imagem:Vladimir Kush)