Foto minha, Bratliparken
…
Na verdade, somos mais vulneráveis do que aquilo que pensamos, quando desalojados da “zona de conforto”, onde as nossas rotinas não necessitam de ser diretamente
vigiadas. Digo isto porquê? Porque tenho vindo a aventurar-me em caminhadas
solitárias, (gosto de as fazer diariamente, sempre que posso, também aqui), por lugares
pouco ou nada conhecidos, nas quais, pasme-se, vou redescobrindo medos-meninos,
medos de infância que retornam como se eu tivesse nascido, ainda agora.
Primeiro tenho medo de me perder. Pode parecer estranho, mas o meu sentido de
orientação é, (sempre foi), uma rosa dos ventos tresloucada em que não posso
confiar. Consciente dessa limitação, caminho
num estado de atenção extremo. Recordo-me do coitado do Polegarzinho, (nestes ares
nórdicos os contos do maravilhoso, lidos na infância, estão sempre a emergir),
que sabendo que seria abandonado na floresta, deixava cair pedrinhas brancas
pelo caminho para saber regressar a casa. Censurei a minha “infantilidade”, mas lá no íntimo, tivesse eu umas pedrinhas brancas à
mão e, decerto me sentiria muito mais segura. Não sendo o caso, fixei a casa branca
das pegas, (não, não é isso que está a pensar). Chamo-lhe “casa das pegas” porque,
da primeira vez que lá passei, o pequeno jardim apresentava-se praticamente alcatifado
de penas azuis, brancas e pretas, a esvoaçarem). A casa das pegas é o ponto de encontro de
vários trilhos onde, aquele de que preciso, faz um cotovelo, dobrando à direita, no sentido que devo tomar. Marco com o
olhar as árvores, as casas, (todas muito parecidas) e opto pelo percurso dos
candeeiros* ovais. O dos candeeiros redondos é demasiado íngreme para mim.
Depois, vem o medo do silêncio. O daqui é tão mais fundo, tão mais intenso que tudo o que oiço é demasiado alto, demasiado confuso. Os meus passos nunca
foram tão descaradamente barulhentos e há murmúrios estranhos e
indecifráveis fora e dentro de mim. Isto acontece se tomo o caminho do Bratliparken, aqui nas traseiras de
casa. Parecendo inofensivo ao primeiro olhar, pode tornar-se rapidamente labiríntico, quando alguém desprevenido se embrenha
nele. Ainda não consegui chegar ao lago,
sozinha, por exemplo. Fica no coração do parque. É um lugar muito aprazível
onde brincam crianças e os adultos cumprimentam com um sorriso, alguns mais
efusivos, com um “Hei” surpreendentemente agradável. Os
patos reais passeiam aos pares junto da margem para deleite dos mais pequenos. Vi-os,
há dias, quando a caminhada se fez em grupo. Ainda não há neve, por
isso nadam em vez de deslizarem no gelo, como exímios patinadores, de asas
abertas, conforme tive oportunidade de os observar no inverno passado, quando o
lago estava completamente sólido.
Por vezes, opto por descer a rua rumo ao centro da cidade; meço cada
esquina, cada pormenor, conto as passadeiras que atravesso, procuro mudar de
direção sempre no mesmo sentido e regressar pelo mesmo caminho. Há pouco
movimento de carros e pessoas. Estas passam agasalhadas e apressadas. Pudera! O
dia é já tão pequeno nesta altura do ano. Há numa esquina alguns jovens de
luvas, cachecóis e gorros coloridos, a rir e a conversar, (já passei por aqui?). Não “pesco” nada do que dizem. Que Língua mais enrodilhada, (aposto
que uma cigarra a aprenderia mais depressa do que eu…) Retida nestes
pensamentos, rua acima, aconteceu ouvir claramente um: ó pá, olha p’ra isto, anda cá
dar uma mão. Parei automaticamente, olhei na direção de onde viera a voz
- um edifício em construção, muitos trabalhadores sobre os andaimes e no topo da
grua, uma bandeira portuguesa, acenando ao vento. Subitamente, sinto-me bem e muito mais
segura. Abrando a passada. Escuto ainda outras vozes, uns palavrões pelo meio. São
do norte, “carago", digo de mim para mim. Continuo o meu percurso a
pensar que fala bem quem afirma haver um português, aonde quer que se vá. Neste caso, uma boa dúzia deles ou mais, sem contar comigo. Sorrio para
os meus botões.
Pois é: A Língua Portuguesa é a minha pátria.
Pois é: A Língua Portuguesa é a minha pátria.
*percurso dos candeeiros - neste parque que refiro no texto, existem dois percursos iluminados, pois há sempre quem vá correr ou caminhar na floresta, depois do sol se pôr. Pelas 15:30h, nesta época do ano.
