I
Passei pelo céu.
É um lugar de separação.
Altos castelos, prados,
lagos e montanhas,
pontes, aquedutos, catedrais,
cavalos, coches,
florestas originais.
Lácteo o sumptuoso átrio
da solidão.
Nem uma alma penada,
um ser alado, uma deidade menor
em amena digressão.
Tampouco um anjo,
um deus, um guardião,
a vigiar as muralhas
de tão colossal construção.
Eis uma cascata de claridade.
De repente faz-se rio
corre, toca, pousa, contorna,
incendeia...
E tudo se move e transmuta
enquanto o sol vagueia.
Tudo é viagem, sonho, apogeu,
mas...
Não mora ninguém no céu.
II
Bruxelas, final da tarde,
aeroporto, estações de metro,
comboios, gente anónima,
formigueiros em vertigem,
alucinante turbação,
músicos de ocasião:
concertinas, flautas, harmónicas
e as boinas voltadas à esmola
para o pão.
Pedintes, bêbados, drogados, aleijados,
banidos da humana condição
dividem as esquinas com sacos de lixo
amontoados no chão. Hoje
recolhe-se o metal e o plástico,
amanhã o papel,
os desperdícios orgânicos.
E para os despojos humanos
que a noite há de bolçar
[cruelmente]
qual o dia certo para os tratar?
Mora
no inferno tanto inocente!
(imagem: Vladimir Kush, 1965, Moscovo)
