Estou hoje absolutamente
lúcida.
Vejo com tal clareza
que me desconheço,
desapareço
em mim e os meus olhos ardem,
de me não verem.
Que farei desta lucidez?
Para que me servirá se não
torna mais felizes os meus dias?
torna mais felizes os meus dias?
Só o vazio me aponta, me apronta.
Estou a vê-lo, a ver-me flutuar
dentro do meu vazio,
gravemente.
E não consigo alcançar-me.
E não compreendo nada
do que compreendo,
e sou mais indefesa do que
sou
no frontispício deste sol.
Habituada à vivência
pura e íntima
de um poema sempre inacabado,
a claridade, se vem fulgente, magoa,
imobiliza, coloca-me em
perigo.
Uma dádiva, talvez.
Porém, uma dádiva
de que não necessito porque:
chama-me, provoca-me, perturba-me...
Sopro a minha lucidez
como se sopra uma chama inútil.
Em poucos instantes
estou de volta ao avesso do real,
onde finalmente [me]
habito.
(pintura:Jeffrey T. Larson)
