domingo, 9 de dezembro de 2018

Morada



Estou hoje absolutamente lúcida.
Vejo com tal clareza
que me desconheço, desapareço
em mim e os meus olhos ardem, 
de me não verem.

Que farei desta lucidez? 
Para que me servirá se não
torna mais felizes os meus dias?
Só o vazio me aponta, me apronta.
Estou a vê-lo, a ver-me flutuar 
dentro do meu vazio,
gravemente.
E não consigo alcançar-me.
E não compreendo nada
do que compreendo, 
e sou mais indefesa do que sou
no frontispício deste sol.

Habituada à vivência pura e íntima
de um poema sempre inacabado,
a claridade, se vem fulgente, magoa,
imobiliza, coloca-me em perigo.
Uma dádiva, talvez. Porém, uma dádiva
de que não necessito porque:
chama-me, provoca-me, perturba-me...
Sopro a minha lucidez
como se sopra uma chama inútil.
Em poucos instantes
estou de volta ao avesso do real,

onde finalmente [me] habito.



(pintura:Jeffrey T. Larson)