Sim, também na Noruega é Natal. Pelo que pude observar, é um Natal mais branco, naturalmente, mais silencioso, mas também mais contido e, parece-me, mais “perfeito” porque está longe, muito longe de se render à onda consumista que por cá cobre tudo e agride quem conserva dentro de si, memórias de natais simples, natais do tempo do Menino Jesus, da Nossa Senhora, do S. José, anjos e pastores e cânticos aprendidos na catequese ou na aula de música. Natais com cheiro a musgo, a azevinho e a resina, natais de quem nunca se esquece que falta Natal em tantos lares, tantas mesas, tantos corações, em tanto mundo sem coração.
Um destes dias, (pró que me havia de dar), meti-me na confusão à procura de uns presentinhos para deixar aos mais novos, aqui, dado que voltarei a Fredrikstad, em breve, desta vez, acompanhada para que se cumpra a tradição de reunir a família, seja em que canto do mundo for. Tanto mais que há um “menino Jesus” chegado recentemente, “a casa”, o que constitui motivo mais do que suficiente para outra viagem. Bem, meti-me ao caminho: filas no trânsito lentas e infindáveis, parques de estacionamento a abarrotar. Arranjar um cantinho para me ver livre do carro, uma odisseia completa. As lojas atapulhadas de decorações (excessivas) para as casas, as mesas, as portas, as janelas, as lareiras. Nada para a alma. As roupas atiradas de qualquer maneira, os expositores e o chão nas lojas da “moda”, uma confusão atroz. As pessoas correm, empurram, falam alto, as crianças gritam. A música, insultada no seu intento de paz, é pisada, ignorada, mutilada pelo frenesim insensível da tarde. Em claro desconforto, pergunto-me o que faço ali. E reparo que me esqueci completamente do que procurava. Um ataque de agorafobia insinua-se. Tem-me acontecido, ultimamente, como se estivesse a esgotar-se em mim, o prazo permitido de pertença a este tempo. Procuro uma saída. Encontro-a antes da primeira vertigem. O ar fresco no rosto… Que alívio! Regresso a casa de mãos vazias. Só uma incómoda e firme irritabilidade que não tinha antes.
Agora, vai ser bonito! Ter de tricotar, em poucos dias, umas pantufas para a Catarina e um coletinho de lã para o Álvaro. Talvez se junte um livrito para cada um deles. (Disseram-me que as livrarias estão às moscas).
FELIZ NATAL!
