sábado, 4 de abril de 2026

Toalha

 

 


Pego na toalha branca de renda,

aquela que só é usada em ocasiões festivas,

aquela que fiz quando não me doíam as costas:

correntinha, ponto baixo, laçada, ponto duplo, lembras-te?

quando as minhas e as tuas palavras,

 eram migalhas doces e felizes

que os pássaros atentos vinham logo devorar.


Entro na sala com a toalha nas mãos.

 Parece tão despida a sala.

O chão limpo, os móveis silenciosos

sob a graça lilás das glicínias no arranjo que compus.

Desdobro a toalha, estendo-a na mesa,

branca como uma folha de papel

onde se pode escrever poemas.

 

Uma profusão de lembranças solta-se do linho,

a renda a debruá-las uma a uma, alegres e vivas.  

Subitamente, as vozes insinuam-se.

e o poema escreve-se.

Cheira a alecrim e alfazema

e é como se fosse eu a escrevê-lo

tão próximos me são os recortes da voz que canta.

 

Lídia Borges