sábado, 23 de março de 2019

À boca de cena



    Tenho, por vezes, a sensação de que já disse tudo o que tinha para dizer, neste e noutros espaços onde eu e a Poesia  coabitamos. E, de cada vez que aqui venho deixar meia dúzia de versos, parece-me que já os havia escrito ontem, há uma semana, há um mês, há uma década...
Não me esqueço de um episódio engraçado, numa ocasião em que se falava, cá em casa, deste meu "vício" da escrita: a dada altura, uma das minhas filhas, atenta à conversa, perguntou, com o ar mais inocente/preocupado do mundo, se eu tinha a certeza de não ter poemas repetidos, tantos que eram. Na verdade, chega um tempo em que uma  necessidade premente, vinda não sei de onde, nos impele a "virar a página", a deixar a poesia SER, apenas, sem a luta constante com as palavras, incontornável quando decidimos falar da poesia [em nós] aos outros.
Este sentimento sempre a pulsar na pele, como chaga, parece ser doença crónica, de tão persistente e incómodo. Julgava eu que, do lado de fora, ninguém perceberia o tamanho exato da desolação de um "tudo dito", perante o absurdo do mundo.  Pensava eu que ninguém, do lado de fora, desvendaria este meu sentir, mas  o facto é que o mesmo foi claramente captado por Isabel Cristina Mateus, (ensaísta, docente na UM), que escreveu, para o Jornal i, uma apreciação crítica do Garças, (meu último livro). Uma abordagem que me surpreendeu em todos os sentidos, especialmente neste, sobre o qual hoje divago. Julgava-me bem mais "discreta". 
Tenho consciência de que sou lida, por outros, de forma diferente, nem de outra maneira poderia ser. Autor e leitor, duas obras: a primeira criada, a segunda, recriada a partir da sugestão, de acordo com a experiência vivencial e a "biblioteca" de cada um.


       «[...]

  Marca de água desta voz poética é ainda o modo como ela se constrói em oposição ou em diálogo com um “tu” que a interpela, provoca, exaspera, seu negativo e seu cúmplice ou leitor, presença de um quotidiano desencantado, de um real não resgatado pela palavra reinventada. Mas também a convocação de um olhar feminino sobre as coisas, o apelo que faz à memória e, em particular, ao tempo da infância. Um olhar contido, objectivo, sem nostalgia, que não deixa de evocar o olhar de Cesário na leitura modernista de Pessoa: “Na cesta sobre o naperon/as cerejas ruborizam./Dir-me-ás que nada há de singular/numa cesta de cerejas a não ser /a sedutora espera de uma boca./E porque tão claro te é o que vês,/não falarei/de umas mãos pequeninas que chegam do fundo da memória/para dedilhar brincos de rainha”(p.17). Convocação do olhar e da memória que passa igualmente pela memória literária ou cultural da autora, pelo diálogo intermedial ou intertextual que os poemas mantêm, entre outros, com a pintura de Dalí e as ilustrações da própria autora, com a música de Verdi e os filmes da Walt Disney, com poetas como Rilke e Juan Ramon Jiménez, como Ruy Belo, Eugénio, Cesário, Caeiro ou Fiama (“Estou assim a verde-cinza/e nem Caeiro nem Sophia nem Fiama/são chama que me aqueça o instante.” p.29), para além de Sophia ou de Manoel de Barros.
Garças é um livro em três andamentos, seguindo os momentos do dia, do amanhecer ao anoitecer, andamentos que desenham, musical e cromaticamente, o distender das asas da garça, o voo da palavra e o olhar sobre o “chão” de lama. Sobre o lodo que os tempos de crise deixaram sobre a cidade. Tempos de desolação, em que os senhores dos números fizeram migrar a palavra poética, reduzindo-a à inutilidade do artifício, substituindo-a por uma retórica vazia, desumana, sem sonho ou emoção: “Chegaram-me uns certos rumores:/ dizem que a lua vai ser privatizada. /Agora vai ficar muito mais caro o luar” (p. 62).
E contudo, é “uma fatia de lua ainda morna/algumas notas de violino ou de piano” (p.80) que esta voz poética pede a um “tu”, no final do livro. A natureza ou a arte como lugar do humano. Memória e resistência a um mundo sem deuses, sem sonho e sem beleza.
Na esteira de Sophia, a poesia de Lídia Borges procura uma íntima relação entre o estético, o ético e o político, busca a inteireza do homem que, para a poeta de “O Nome das Coisas”, só na poesia pode existir: “É a poesia que torna inteiro o meu estar na terra. E porque é a mais funda implicação do homem no real, a poesia é necessariamente política e fundamento da política. (...) Assim como busca a relação verdadeira do homem com a árvore ou com o rio, o poeta busca a relação verdadeira com os outros homens. (...) E porque busca a inteireza, a poesia é por sua natureza desalienação, princípio de desalienação, desalienação primordial. Liberdade primordial. Justiça primordial.” (Poesia e Revolução).
Desalienação consciente de que antes das palavras está o mundo e o nosso olhar sobre ele, as imagens que construímos e nos confrontam, como sublinha John Berger, com o modo de ver do outro.»

Isabel Cristina Mateus, in Jornal i, (01/02/19)

Texto integral aqui .