Se li o Guerra e Paz? (Liev Tolstói)

Bem, isto tudo vem a propósito do que ando a ler agora: J.M. Coetzee
- Diário De Um Mau Ano, onde, na página 203, num dos três
planos narrativos distintos, (uma original experiência entre narrativa e ensaio
que o autor nos oferece), se lê o seguinte:

Passo mentalmente em revista a nova ficção que li nos últimos doze meses,
na tentativa de encontrar algum livro que me tenha realmente tocado, e o
resultado é o vazio. Para esse toque profundo sou reconduzido aos clássicos, a
episódios a que numa época passada se chamaria pedras de toque, pedras que a
pessoa tocaria para renovar a sua fé na humanidade, na continuidade da história
humana: Príamo a beijar as mãos de Aquiles, a pedir o corpo do filho; Petya
Rostov a tremer de excitação enquanto espera para montar o seu cavalo na manhã
em que morrerá...
Páro, abro uma janela para a minha própria respiração. Necessito de
analisar uma súbita imagem, na memória, como uma tela: um cavalo a
galopar numa espécie de cerca, e o cavaleiro agitando os braços, debaixo de
fogo ou fumo. Nem eu acredito verdadeiramente na fiabilidade deste flash. Devo
estar a confundir a memória com a imaginação - mas quanto mais fundo rebusco
mais me convenço de que posso não estar enganada.
Pouco passa das seis da manhã. Tenho tempo até que a casa acorde e todos
voltem os olhos para mim. Pois claro, sou a filha, a mãe, a avó, (por
estes dias), a mulher... e ao fim-de-semana não há quem venha ajudar na cozinha
ou noutro lado qualquer. Mas... é cedo. Tenho tempo. Pouso o livro aberto voltado
para baixo, para não perder a página e vou à estante procurar. Caio em mim,
quando deparo com os 4 livros (gordinhos) alinhados como soldados em parada.
Pego no volume 4. Folheio à procura do nome Petya Rostov... Devo ter
perdido o juízo. Talvez o Google me dê alguma pista. Nada! Sobre a morte de
Petya/Petia*... nada!
Durante o dia, nos breves momentos livres, fui
folheando o volume 4 (não me perguntem porquê o 4 e não um dos outros três, pois
não saberia responder - "não se acredita nelas, mas que as há...").Até que encontro Petya/Petia morto. Recuo uns parágrafos - Eureka!
- Esperar?... Hurra!... – gritou Petia,
e sem se deter por um instante, galopou para o ponto de onde partiram os tiros
e onde o fumo era mais espesso. Partiu uma salva, algumas balas perderam-se
zunindo, outras encontraram os seus alvos. Atrás de Petia os cossacos de
Dolokhov passaram o portal a galope.
No meio do fumo espesso e móvel, os
franceses fugiam, uns largando as armas, outros correndo à frente dos cossacos,
outros precipitando-se colina abaixo em direcção ao pântano. Petia galopava
através do pátio e, em vez de segurar as rédeas, agitava estranha e rapidamente
os dois braços acima da cabeça, inclinando-se cada vez mais na sela. O cavalo,
ao encontrar pela frente um braseiro que se extinguia na claridade matinal,
deteve-se bruscamente, e Petia caiu como um fardo em terra húmida. Os cossacos
viram-no agitar convulsivamente os braços e as pernas, embora a cabeça
permanecesse imóvel. Uma bala atravessara-lhe o crânio.
****
O Sol já se deitou há algum tempo. Regresso agora ao Diário De Um
Mau Ano, ainda de bruços no cadeirão, à espera, e continuo a ler:
Mesmo numa primeira leitura, a pessoa
tem a premonição de que naquela enevoada manhã de Outono nem tudo correrá bem
ao jovem Petya. As pinceladas de prenúncio que criam esse estado de espírito
são bastante fáceis de dar, uma vez ensinada a pessoa a fazê-lo, mas da pena de
Tolstói toda a coisa emerge, apesar disso, uma e outra vez, miraculosamente
nova.
Petyia Rostov - dirá
o meu leitor ou a minha leitora, cujo rosto me é e será sempre
desconhecido -, não me lembro de Petya Rostov; e
vai à estante buscar Guerra e Paz, à procura da morte de Petya. Outro
dos significados dos "clássicos": estar na estante à espera de ser de
lá tirado pela milésima, milionésima vez. Clássico: o que perdura...
E os livros como as cerejas!...
Lídia Borges
(Obs: Petya - Grafado com y, em Coetzee; grafado com i na tradução, Tolstói.)
(Fotos minhas/telemóvel)