sábado, 31 de agosto de 2019

Como as cerejas


Se li o Guerra e Paz? (Liev Tolstói)


 A verdade é que não me lembro de ter lido todos os volumes, (4, na edição primeira do Círculo de Leitores, (s/d) que usa o texto padrão russo, 4 livros, 15 partes e dois epílogos. Li o tomo I, jovem ainda, sôfrega de mundos e de saber. Mais tarde, em alguns momentos, devo ter voltado à obra, mas julgo não ter lido na integra, as 1225 páginas do romance (como hoje é denominado), Guerra e Paz. Possuo a obra desde que, um dia, meu tio/padrinho ma ofereceu, achando-me capaz de, aos 15 anos, absorver alguma pequena parte da imensidade histórica, sociológica e psicológica em presença, na Rússia da época das guerras napoleónicas. 

Bem, isto tudo vem a propósito do que ando a ler agora: J.M. Coetzee - Diário De Um Mau Ano, onde, na página 203, num dos três planos narrativos distintos, (uma original experiência entre narrativa e ensaio que o autor nos oferece), se lê o seguinte:


Passo mentalmente em revista a nova ficção que li nos últimos doze meses, na tentativa de encontrar algum livro que me tenha realmente tocado, e o resultado é o vazio. Para esse toque profundo sou reconduzido aos clássicos, a episódios a que numa época passada se chamaria pedras de toque, pedras que a pessoa tocaria para renovar a sua fé na humanidade, na continuidade da história humana: Príamo a beijar as mãos de Aquiles, a pedir o corpo do filho; Petya Rostov a tremer de excitação enquanto espera para montar o seu cavalo na manhã em que morrerá...


Páro, abro uma janela para a minha própria respiração. Necessito de analisar uma súbita imagem,  na memória, como uma tela: um cavalo a galopar numa espécie de cerca, e o cavaleiro agitando os braços, debaixo de fogo ou fumo. Nem eu acredito verdadeiramente na fiabilidade deste flash. Devo estar a confundir a memória com a imaginação - mas quanto mais fundo rebusco mais me convenço de que posso não estar enganada. 

Pouco passa das seis da manhã. Tenho tempo até que a casa acorde e todos voltem os olhos para mim.  Pois claro, sou a filha, a mãe, a avó, (por estes dias), a mulher... e ao fim-de-semana não há quem venha ajudar na cozinha ou noutro lado qualquer. Mas... é cedo. Tenho tempo. Pouso o livro aberto voltado para baixo, para não perder a página e vou à estante procurar. Caio em mim, quando deparo com os 4 livros (gordinhos) alinhados como soldados em parada. Pego no volume 4. Folheio à procura do nome Petya Rostov... Devo ter perdido o juízo. Talvez o Google me dê alguma pista. Nada! Sobre a morte de Petya/Petia*... nada!

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Durante o dia, nos breves momentos livres, fui folheando o volume 4 (não me perguntem porquê o 4 e não um dos outros três, pois não saberia responder - "não se acredita nelas, mas que as há...").

Até que encontro Petya/Petia morto. Recuo uns parágrafos - Eureka!






- Esperar?... Hurra!... – gritou Petia, e sem se deter por um instante, galopou para o ponto de onde partiram os tiros e onde o fumo era mais espesso. Partiu uma salva, algumas balas perderam-se zunindo, outras encontraram os seus alvos. Atrás de Petia os cossacos de Dolokhov passaram o portal a galope.

No meio do fumo espesso e móvel, os franceses fugiam, uns largando as armas, outros correndo à frente dos cossacos, outros precipitando-se colina abaixo em direcção ao pântano. Petia galopava através do pátio e, em vez de segurar as rédeas, agitava estranha e rapidamente os dois braços acima da cabeça, inclinando-se cada vez mais na sela. O cavalo, ao encontrar pela frente um braseiro que se extinguia na claridade matinal, deteve-se bruscamente, e Petia caiu como um fardo em terra húmida. Os cossacos viram-no agitar convulsivamente os braços e as pernas, embora a cabeça permanecesse imóvel. Uma bala atravessara-lhe o crânio.

(Tomo IV, terceira parte, página 183)
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O Sol já se deitou há algum tempo. Regresso agora ao Diário De Um Mau Ano, ainda de bruços no cadeirão, à espera, e continuo a ler:
Mesmo numa primeira leitura, a pessoa tem a premonição de que naquela enevoada manhã de Outono nem tudo correrá bem ao jovem Petya. As pinceladas de prenúncio que criam esse estado de espírito são bastante fáceis de dar, uma vez ensinada a pessoa a fazê-lo, mas da pena de Tolstói toda a coisa emerge, apesar disso, uma e outra vez, miraculosamente nova.
Petyia Rostov - dirá o meu leitor ou a minha leitora, cujo rosto me é e será sempre desconhecido -, não me lembro de Petya Rostov; e vai à estante buscar Guerra e Paz, à procura da morte de Petya. Outro dos significados dos "clássicos": estar na estante à espera de ser de lá tirado pela milésima, milionésima vez. Clássico: o que perdura...

E os livros como as cerejas!...


Lídia Borges


(Obs: Petya - Grafado com y, em Coetzee; grafado com i na tradução, Tolstói.)



(Fotos minhas/telemóvel)