terça-feira, 3 de setembro de 2019

Setembro



Numa dimensão mnemónica, mais ou menos real, Setembro "aparece-me" sempre atravessado por uma estrada entre vinhas, campos de milho e árvores comuns do meu Minho de todos os verdes. Há quem não os distinga e diga simplesmente - é verde! Ou, então, como Torga, em dia não: O verde come o resto do arco-íris... mas o minhoto sabe ver facilmente o arco-íris nas mil tonalidades do verde que o rodeia e sabe o que, cada uma dessas tonalidades, tem a contar sobre a Natureza e a relação desta com as pessoas, o seu modo de ser. E de viver cada época do ano. 

É sempre às horas primeiras da manhã, quando o sol expande seus raios oblíquos por entre carvalhos, pinheiros, castanheiros e plátanos, deixando a fluir sobre o mundo dos mortais, uma luz deleitosa e inspiradora, que  vejo Setembro a aproximar-se, aurífico. 

Eu conduzo em estado de perfeito deslumbre. E tudo está bem, porque é Setembro. Tão bem que dentro do peito uma música, como se de anjos, se aconchega.  Tudo está bem, mesmo que a escola para onde me dirijo, pareça afastar-se, célere, no espaço e no tempo, mais e mais, à medida que progrido. Parece-me!... Mas depois de uma curva em cotovelo, à esquerda, a estrada estreita-se e dá-se início à subida. Lá no alto da colina, há-de elevar-se, a todo o momento, o pequeno edifício de paredes pintadas de branco. Em redor, um jardim de chorões, cactos  e pedras. E um grupo, expectante, de crianças, aproximando-se do portão de entrada, vindo na minha direcção, como se, de há muito, me conhecessem.



(Hoje escrevi, desrespeitando as regras do A.O. Apetece-me fazê-lo sempre que me lembro de que ensinei centenas de crianças a ler e a escrever. Se lessem, esses jovens, esses adultos, hoje, o que escrevo, riscariam a negro os meus erros ortográficos, para que não permanecessem na minha memória visual e, desse modo,  me levassem a repeti-los, tal como  eu fazia, colocando-lhes à frente a palavra correctamente escrita.)

Lídia Borges