quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Do outro lado





Do outro lado é fevereiro,
o rosto toldado dos dias mínimos,
pássaro dobrado 
no poema 
sob o peso inaudito da palavra 
que não podes movimentar.


Do outro lado é a rapariga
de água e nevoeiro. E a travessia;
a florista e os cestos avessos
à invenção das flores.
É o ressoar de uma rua sem nome,
entre a despedida e a alvorada.

O outro lado é aqui onde não passam as estrelas
e por isso não há como dizer sim a uma
e não a outra sem deixar cair um lamento.

Deste lado é a música e os traços [vagos]
que ela deixa à flor do mosto, 
quando anoitece.


Lídia Borges