domingo, 25 de agosto de 2019

Trevo


Leszec Sokol

No espaço diminuto
do corpo onde coabitamos,
súbitos desencontros.
Contra a ordem natural das coisas
amplia-se o teu nome 
que é, devia ser
uma haste do meu, apenas.
Os teus gestos
semelhança forçada
dos meus gestos.
O teu falar, do meu, um frouxo eco,
o teu sentir colhido ainda verde
nas margens do coração que é meu.
És um trevo a que dei guarida
num belo jardim de camélias…

E vens agora 
tomar para ti flores insectos e perfumes.
Tolero-te até à mágoa que julgas vestir
sem que reste dela mágoa alguma.
Dou-te espaço, deixo que cresças
acanho-me para que te distendas
Calo-me para que fales...
Porém, deixa que te avise:
a minha condescendência findará
quando tomares por tua
a lucidez que só a mim pertence.


 Lídia Borges