Eu gostava
de ser um pouco mais surrealista,
de fazer poemas
com uma cadeira por dentro da alucinação,
domar leões de pelúcia com essa cadeira e um chicote
que me
caísse, de súbito, como serpente, de uma
árvore
que passasse a correr na frescura do meu poema surrealista.
Eu gostava de ver crescer nesse poema uma estrofe
repleta de copos de vidro embriagados
e muita, muita gente vestida de branco
a beber, dançar e cantar alegremente
nas linhas
curvas do meu poema surrealista...
Se eu
soubesse escrever um poema surrealista
podia até,
[quem sabe?] fazer uma selfie
com o
presidente da república:
eu sentada
na cadeira bem ao centro do delírio
vestida de
palhaço com uma sombrinha toda em renda
e umas luvas
brancas... e o presidente a rir, fotogénico...
Mas...
os meus
poemas surrealistas saem-me todos mal.
Não atino!
Ao mais leve
descuido caem da cadeira, com estrondo
rasgam a selfie, quebram os
copos,
deixam-se devorar pelos leões
de pelúcia e...
eu vejo-me obrigada a ficar em casa
para fugir da serpente em fúria com o desaparecimento
da árvore...
e... respiro
enfim levemente
meus versos recatados e tocáveis
com cheiro
a hortelã, limão e alecrim...
Lídia Borges
