quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Poema surrealista





Eu gostava de ser um pouco mais surrealista,
de fazer poemas com uma cadeira por dentro da alucinação,
domar leões de pelúcia com essa cadeira e um chicote
que me caísse, de súbito, como serpente, de uma árvore 
que passasse a correr na frescura do meu poema surrealista.

Eu gostava de ver crescer nesse poema uma estrofe
repleta de copos de vidro embriagados
e muita, muita gente vestida de branco
a beber, dançar e cantar alegremente
nas linhas curvas do meu poema surrealista...

Se eu soubesse escrever um poema surrealista
podia até, [quem sabe?] fazer uma selfie
com o presidente da república:
eu sentada na cadeira bem ao centro do delírio
vestida de palhaço com uma sombrinha toda em renda
e umas luvas brancas... e o presidente a rir, fotogénico...

Mas...

os meus poemas surrealistas saem-me todos mal.
Não atino!
Ao mais leve descuido caem da cadeira, com estrondo
rasgam a selfie, quebram os copos,
deixam-se devorar  pelos leões de pelúcia e...
eu vejo-me obrigada a ficar em casa
para fugir da serpente em fúria com o desaparecimento
da árvore... 


e... respiro enfim levemente
meus versos recatados e tocáveis
com cheiro a hortelã, limão e alecrim...


Lídia Borges