Não sei bem onde comprei este livro, mas penso que terá sido na Feira do Livro, cá em Braga, este ano. Trouxe-o e até hoje ainda não lhe tinha dado a mínima atenção, apesar do seu tamanho sobressair no canto superior direito da segunda estante de poesia. É grande! Não tanto, contudo, como o poeta dos 895 poemas que este Poesia 2, (2015), contém. Sim, Poesia 2, pois o Poesia 1, (2013), desta coleção – "Obras Completas" - reúne os livros que Jorge de Sena havia publicado em vida e esse eu já conhecia, bem como uma tese de doutoramento de Jorge Fazenda Lourenço, um reconhecido especialista da obra do poeta de Sinais de Fogo. É ele quem assina, de resto, a “nota prévia” do Poesia, (volume 2) e que me foi entreabrindo portas e janelas à grandeza deste poeta e da sua vasta e multifacetada obra, marcada por uma longa experiência de exílio.
Temos
aqui reunida a poesia esparsa, à hora da morte do poeta, (04/06/1978), e alguns
inéditos, textos que foram depois publicados por Mércia de Sena em vários
livros, desde 40 Anos de Servidão, (1978) até Dedicácias, (1999). A ordem cronológica
a que obedece a organização do volume permite-nos percorrer, passo a passo, o “diário poético”
deste que é hoje considerado um dos grandes poetas
de língua portuguesa e um dos vultos centrais da cultura do nosso século XX.
Estou
a ler, aqui e ali... Por vezes, tenho a sensação de que fala comigo, que me critica a mania
das “asas”, as minhas visões romantizadas do mundo que só muito recentemente
começam a revelar-se a meus olhos toscas e inadequadas ao tempo de agora. Parece querer
avisar-me: esquece. Não tenhas ilusões. A humanidade está doente de doença
incurável.
A
ILUSÃO NOVA
Bem
sei que as ilusões são ilusões. Mas quando não há mais nada para nos encher a
alma e ela vazia é um cristal de angústia, porque não enchê-la de ilusões?
Encomendei
ao Deus do Espaço uma ilusão nova. Deve estar a chegar.
Sinto
rir ao longe. É ela que vem. Com certeza é ela. Ninguém ri à minha volta a não
ser as ilusões.
Vou
espreitar a sua chegada.
E
se ela tem medo de mim e foge?
Não
foge. Vou devagarinho…
Lá
vem. Toda de azul!
E
a sorrir!
Que
grande que esta é! Vai dar para tanto tempo!...
Que
é aquilo? Pára? Hesita?
Ah!...
Não vem para aqui…
(13/08/1938)
Jorge de Sena (2015:p.140), Poesia 2.
