domingo, 18 de agosto de 2019

"Le muguet" / O lírio do vale

 

Há uma qualquer nostalgia
no rosto molhado deste agosto.
Mas nada que se pareça com tristeza
que dela - posso gabar-me -
sei alguns segredos.

É de outra natureza esta nostalgia,
quase doce, quase colo...
vem não se sabe de onde 
e traz vozes que são minhas:
o pai, a avó, a velha Emerenciana, 
a dócil Beatriz, branca de neve,  
sempre a espirrar contra os fenos.

E há gatos a roçarem as pernas da nostalgia 
e do silêncio que atravessa
o soalho envernizado do corredor de outrora.
É uma nostalgia feita de renda e delicadeza...
[Oh, meu caro Rimbaud!:
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.]

É uma nostalgia de formas arredondadas e lisas
que podia ser pintada, sem um grito a destoar, 
toda ela em tons pastel,
as cores do mito que a infância tece
no ventre adulto do tempo.

Lídia Borges




(pintura:Eduard Panov, 1948, Le muguet)