Há uma qualquer nostalgia
no rosto molhado deste agosto.
Mas nada que se pareça com tristeza
que dela - posso gabar-me -
sei alguns segredos.
É de outra natureza esta nostalgia,
quase doce, quase colo...
vem não se sabe de onde
e traz vozes que são minhas:
e traz vozes que são minhas:
o pai, a avó, a velha Emerenciana,
a dócil Beatriz, branca de neve,
sempre a espirrar contra os fenos.
E há gatos a roçarem as pernas da nostalgia
e do silêncio que atravessa
o soalho envernizado do corredor de outrora.
É uma nostalgia feita de renda e delicadeza...
[Oh, meu caro Rimbaud!:
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.]
É uma nostalgia de formas arredondadas e lisas
que podia ser pintada, sem um grito a destoar,
toda ela em tons pastel,
as cores do mito que a infância tece
no ventre adulto do tempo.
Lídia Borges
(pintura:Eduard Panov, 1948, Le muguet)
