sábado, 17 de agosto de 2019

Agosto é sempre tão cedo



 
Sei-te sem precisar de olhar os teus olhos.
E tu estás próximo. Tanto
que nem distingues a minha sombra
da minha luz…

Sentámo-nos tranquilamente
no rebordo do mundo.
É sempre tão cedo em agosto!
Temos um bordado nas mãos.
Azul.
E nenhum fio solto nas paisagens
que deixámos para trás. 

Vindo do lado das montanhas
um sopro de vento vagaroso  
derrui a nossos pés a primeira folha,
a última maçã.

Também caíremos.
E nada dentro de nós estremece
diante desta imagem tensa.

A tarde vai descendo levemente 
em direção ao mar.
A esta hora
tudo se parece já com uma despedida.
E sorrimos ainda,
[agosto é sempre tão cedo].

Se déssemos um passo atrás
não nos reconheceriam 
os espelhos da casa. 

Lídia Borges 

 pintura: Charles Frederic Ulrich - 1890