A chuva
encharcou a tarde.
Preparara-me
para lhe escutar
as vozes
primeiras de outono,
para lhe vindimar os últimos frutos,
pedir
a Baco a alegria madura
de um poema.
Mas escorreguei de ternura
nas
pedras húmidas das calçadas
no asseio límpido das cascatas,
no coro jovial da água
que soa por todos os lados.
O poema
esquiva-se rapidamente,
névoa
apenas a pintar de cinza
as
montanhas mais altas
que os sentidos dispersos
não
alcançam.
Ficou-me nas mãos uma gota de nada.
Luzente, porém.
Atiro-a
ao rio e deixo-a ir.
Descrevo-a
depois
com a
solidez de uma distância
que esmaga.
Lídia Borges
