sábado, 21 de setembro de 2019

Luzidia, porém



A chuva encharcou a tarde.
Preparara-me para lhe escutar
as vozes primeiras de outono,
para lhe vindimar os últimos frutos,
pedir a Baco a alegria madura
de um poema.
Mas escorreguei de ternura
nas pedras húmidas das calçadas
no asseio límpido das cascatas,
no coro jovial da água 
que soa por todos os lados.   
O poema esquiva-se rapidamente,
névoa apenas a pintar de cinza
as montanhas mais altas
que os sentidos dispersos
não alcançam.

Ficou-me nas mãos uma gota de nada.
Luzente, porém.
Atiro-a ao rio e deixo-a ir.
Descrevo-a depois
com a solidez de uma distância
que  esmaga. 


Lídia Borges