quarta-feira, 20 de novembro de 2019

"O Colar de Estrelas"



Escrever para crianças é, antes de tudo mais, um ato de amor - dizem alguns. Para mim é também a única forma viável de regressar à infância, rebuscar a memória à procura dos acontecimentos de bibe e tranças. As primeiras imagens, com pés e cabeça, que guardo desse tempo são lembranças de letras, de livros, de aventuras inventadas, porque… diacho, nos livros de aventuras dos "Cinco", dos "Sete", que eu devorava, tudo acontecia e “desacontecia” tal e qual como nós sonhávamos. Eles, os miúdos dos livros, estavam sempre metidos em aventuras mirabolantes e saíam-se sempre bem. Eram heróis, enquanto nós, miúdos como eles, que, como eles, tínhamos até um cão, chamado "Tim", nós não éramos senhores de nenhuma proeza, nenhum mistério, nenhuma aventura em que pudéssemos, com a nossa inteligência, a nossa coragem, a nossa força, salvar alguém ou alguma coisa valiosa, entregar à polícia raptores, ladrões de tesouros, piratas e outros bandidos que ameaçavam e ameaçam o mundo.
Há tempos, alguém me lembrou que, aos nove, dez anos, eu não me conformava com a pasmaceira no nosso quotidiano de gente pequena (que, embora podendo subir a um carvalho ou a um sobreiro, nunca a casa da árvore chegava a ser uma realidade*), e para justificar a minha sede de ação, relatou-me um episódio que já se me apagara do velho caderno de notas da infância: no nosso lugar de encontro, uma arrecadação mal iluminada debaixo de uma escada da nossa casa, apareciam coisas estranhas. Era aí que nós, (refiro-me a um pequeno grupo de miúdos, irmãos meus e vizinhos) nos reuníamos para traçar, em conjunto, planos "elaborados" que serviriam para desvendar, um por um, todos os mistérios que teimavam em não nos acontecer. Parece que, há falta de melhor, eu tratava de criar os mistérios em falta, deixando mensagens escritas debaixo da porta que só se abria a quem soubesse a senha secreta. Ai de quem a esquecesse! A minha irmã confessou-me recentemente que, chegara a andar aterrorizada, à conta de um papelito que tinha encontrado debaixo da porta da arrecadação onde se lia: “tereis visitas”. Responsabilidade minha, diz ela.


* A casa da árvore foi embargada (sem direito a contestação) por “ordens superiores” no dia em que o meu irmão caiu do ramo do carvalho, inclinado para o chão de tão velho, onde eu e ele, trabalhávamos duramente na construção da tão sonhada casa. O meu irmão partiu dois dentes e foi dizer que eu o tinha empurrado. Mentiroso!
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(imagem: cartaz da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva para a apresentação do meu próximo livro para crianças - "O Colar de Estrelas")


Lídia Borges