sábado, 9 de novembro de 2019

Sete Folhas Soltas

(imagem s/ind. autoria)

I
Saudade da Poesia!

II
Escrevo frase soltas sem nexo.
Esboroo palavras do quotidiano:
os líquenes do muro,
o duelo de fetos e heras que se estorvam,
a humidade que num esfregar de olhos
enegreceu os troncos dos limoeiros,
enverdeceu o lajedo
esvaziou os catos, contristou o pátio
e o saltitar de um pardal solitário
na folhagem.

III
Não encontro em nada disto 
significados 
que às palavras reconheçam elevações 
ou precipícios de poema...
A não ser que tudo isto que vejo e registo
exista para tornar invisível
o vento por dentro dos olhos.
Tanta gente chora!

IV
Vou atrás de Sophia. Obrigo-me a ir…
Eu gosto de Sophia.
Pela Menina do Mar, primeiro. Pela Fada Oriana,
o Cavaleiro da Dinamarca, a Saga…
Depois, o Geografia, o Dual, o Navegações,
o Nu na Antiguidade Clássica, o Livro Sexto
e o primeiro e o último que haverá de ser
quando rapado o fundo das arcas.

Por favor, não matem em mim
a Musa.



V
 Saudade da Poesia
anterior ao artifício.

VI

Fala do silêncio das pedras.
Uma poesia temporal,
mundana, abstémia,
empedernida
julga poder secar
a água que canta nas fontes.

Mas eu ouço-a cantar
e isso me basta.   

  
 VII

Tenho em mim um certo pudor
com a Poesia do contra
da fúria, da ironia.
Escrevo boca, lua, fonte, sinfonia
Quero a minha Poesia do a favor.

Necessito de um barco.
Tão raras as minhas,
as tuas palavras de amor.

Lídia Borges