(imagem s/ind. autoria)
I
Saudade da Poesia!
II
Escrevo frase soltas sem
nexo.
Esboroo palavras do
quotidiano:
os líquenes do muro,
o duelo de fetos e heras que
se estorvam,
a humidade que num esfregar
de olhos
enegreceu os troncos dos
limoeiros,
enverdeceu o lajedo
esvaziou os catos,
contristou o pátio
e o saltitar de um
pardal solitário
na folhagem.
III
Não encontro em nada disto
significados
que às palavras reconheçam elevações
ou precipícios de poema...
A não ser que tudo isto que vejo
e registo
exista para tornar
invisível
o vento por dentro dos
olhos.
Tanta gente chora!
IV
Vou atrás de Sophia.
Obrigo-me a ir…
Eu gosto de Sophia.
Pela Menina do Mar,
primeiro. Pela Fada Oriana,
o Cavaleiro da Dinamarca, a
Saga…
Depois, o Geografia, o Dual,
o Navegações,
o Nu na Antiguidade
Clássica, o Livro Sexto
e o primeiro e o último que haverá
de ser
quando rapado o fundo das
arcas.
Por favor, não matem em mim
a Musa.
V
Saudade da Poesia
anterior ao artifício.
VI
Fala do silêncio das pedras.
Uma poesia temporal,
mundana, abstémia,
empedernida
julga poder secar
a água que canta nas fontes.
Mas eu ouço-a cantar
e isso me basta.
VII
Tenho em mim um certo pudor
com a Poesia do contra
da fúria, da ironia.
Escrevo boca, lua, fonte,
sinfonia
Quero a minha Poesia do a
favor.
Necessito de um barco.
Tão raras as minhas,
as tuas palavras de
amor.
Lídia Borges
