terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Caleidoscópio



Caleidoscópio da distopia
esta caixa desengonçada 
que habitamos.
Ferimo-nos nas arestas dentadas
na agrestia das faces
na inconstância dos ângulos.
Desorientamo-nos
nas terras de muitas guerras,
nas águas de muitos mares
como veleiros sem norte, sem vento.
Rasgamos as mãos, os olhos,
os ossos, a alma
para acondicionarmos o corpo
à posição menos incómoda.
Doem-nos todos os continentes
e oceanos.
Ínfimos e leves evolamo-nos
como álcool inflamado.
E nunca sabemos bem em que viagens
reais ou sonhadas 
ficaram perdidos os passos que não demos.

Quem disse redondo o mundo, mentiu. 


Lídia Borges


(imagem s/ ind. de autoria)