(imagem Andrea Kowch)
Escreve
bem
a caneta
de prata que me ofereceste.
Molda-se
suavemente à pele das palavras
como se amá-las
fosse
o dever único de seu corpo agudo. Frio.
Um dia, escreverei com ela, Saudade.
Poderás ver
então a poalha dos pomares luzir
trespassada
por punhais de sol
e um
sorriso fresco de frésias e umas mãos de cera
tão cegas…
Escreverei
presente para sentires a matéria opaca
dos dias
em revolto leito descendente…
Dor. Não escreverei
dor
talvez arrisque um
risco a negrito
sobre essa
palavra hostil,
um risco que uma
caneta de prata possa correr
a fim de dizer aberto o futuro. Legível.
Por ora, para
que não se deforme
nos dedos a erva-do-orvalho
de caneta
tão delicada
marco com o
meu velho lápis
pontinhos de luz esparsos na sombra
onde seu bico rombo se desgasta
continuamente.
Lídia Borges
