sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Prata


(imagem Andrea Kowch)

Escreve bem
a caneta de prata que me ofereceste.
Molda-se suavemente à pele das palavras
como se amá-las fosse
o dever único de seu corpo agudo. Frio.

Um dia, escreverei com ela, Saudade.
Poderás ver então a poalha dos pomares luzir
trespassada por punhais de sol   
e um sorriso fresco de frésias e umas mãos de cera
tão cegas…  
Escreverei presente para sentires a matéria opaca
dos dias em revolto leito descendente…

Dor. Não escreverei dor
talvez arrisque um risco a negrito
sobre essa palavra hostil,
um risco que uma caneta de prata possa correr
a fim de dizer aberto o futuro. Legível.

Por ora, para que não se deforme
nos dedos a erva-do-orvalho   
de caneta tão delicada
marco com o meu velho lápis
pontinhos de luz esparsos na sombra
onde seu bico rombo se desgasta
continuamente. 



Lídia Borges