quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Fuga ao vocábulo de significação evidente / 7





O poema é um caracol onde ressoa a música do mundo,
e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos,
da harmonia universal.
Octavio Paz


Poema * (ê), s.m. (do grego poiema, pelo lat. poema). Qualquer obra em verso, especialmente de certa extensão./ Epopeia / Obra em prosa em que há ficção e estilo poético / Assunto ou coisa digna de ser cantada em verso / Texto de uma peça lírica. De uma ópera…

Poema:

- principal órgão de respiração da Poesia;

- bicho que vive dentro de um aquário pintado de azul, em permanente estado de embriaguez;

- mancha textual que pode ser suja, Poema Sujo. Quando assim é, costuma entreter-se a descascar o azul do cristal. Mas só em tempos e espaços que, por submersos em dióxido de carbono, estão interditos à Poesia;

- véu puro ou impuro a ocultar vazios;

- a invenção de um olhar como afirmação do real, revelação, música, dança, ritmo ditado pelo coração do mundo;

- fonte de onde se bebe sem que nunca a sede seja saciada;

- palavra instável que tanto pode ser ave e voar como ser rato de sarjeta;

- um modo de tornar real a grandeza do homem ante os caprichos dos deuses;

- palavra sagrada ou maldita que se alonga em prados de instabilidade, excepto quando na brisa oscilam beijos molhados de ternura;

- verbo acusado de subjetividade que se descarna ao mais leve rumor do vento na voz;

- Falésia, vivências e desvivências, naus de loucura, espigas de trigo, estrelas debruçadas sobre o escuro…; 

- Ofício de poetas, seres alienígenas, que vivem dependurados nos raios solares com visível vocação de lanterna. Nas noites de verão passeiam-se na terra com a lua no bolso. Umas vezes riem, rosas abertas, outras choram, chuvas de inverno. Raramente, a sombra apaziguadora da oliveira na encosta seca. As razões?... Ninguém sabe, ao certo.[1]

 

*Grande Dicionário da Língua Portuguesa (1981:p.228, IX Volume)


[1] Estudos recentes lançam suspeitas sobre uma febre errática, de natureza humana, contraída por contágio, através de cálices de névoa, sorvidos continuamente sem medida nem moderação.

Lídia Borges