sábado, 1 de fevereiro de 2020

1917


imagem: pesquisa Google
Fui ver o “1917”. Não só porque o tema do filme prometia, (1.ª Grande Guerra), mas também porque, de vez em quando, preciso de deixar o Netflix e o ecrã do computador para ir ao cinema. Gosto da tela grande, do som, (Dolby Atmos, projetado a 360º), do escurinho... por falar em escurinho: quando entrámos, as luzes já se tinham apagado, ainda assim foi possível perceber que a sala estava praticamente vazia. Na sombra adivinhavam-se duas ou três cabeças, lá na última fila.  Tentámos encontrar os nossos lugares, aos tropeções, mas acabámos por desistir e sentámo-nos ao meio da sala, bem em frente à tela. Estranhamente, no preciso momento em que o filme começa, as luzes acendem-se. Assistimos a dez, doze minutos, (sensivelmente), da película com uma qualidade de imagem péssima. Nas trincheiras os soldados debaixo do nevoeiro, empalideciam, não se sabendo se por defeito da imagem se por ação dos bombardeamentos de que eram alvo.
Foi preciso que, quem me acompanhava, saísse do lugar e fosse lá fora procurar um funcionário que desligasse as luzes. Desfez-se em desculpas, o homem, e disse que iria apagá-las, de imediato. Bem... esperámos confiantes, enquanto os protagonistas, os soldados Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay), corriam já nas trincheiras, aturdidos, com a perigosa missão (quase impossível) que lhes fora dada por um superior: atravessar o campo inimigo para entregar uma carta na linha da frente, num curto espaço de tempo. Se falhassem, morreriam em batalha milhares de soldados... E as luzes continuavam acesas! De repente, uma porta abre-se para dar passagem a dois homens munidos de um escadote e não sei que mais nas mãos. Uns minutos depois pudemos ver, com agrado, que o filme até tem uma boa fotografia. Um dos funcionários veio ter connosco, amavelmente, dando conta de  que iria puxar a fita atrás. Achámos desnecessário até porque a missão dos dois soldados britânicos era uma verdadeira corrida contra o tempo e não queríamos atrasá-los. Era o que faltava! Estavam já tão cansados, os rapazes!

No intervalo, para entreter os olhos, li o panfleto que me tinham dado, à entrada:
Ir ao cinema nunca mais será a mesma coisa graças à sala Cineplace Blue Diamond do nosso Centro. Este espaço moderno, confortável e altamente tecnológico permite uma experiência única que dificilmente irá esquecer.
Sim, sim! Só não li que o bilhete é bem mais caro e que, quem quiser ver o filme, tem de pagar, pois o mesmo não está a ser exibido noutra das muitas salas de que dispõe o Centro.

Da história contada por Sam Mendes, indicado como candidato aos Óscares 2020, não vi quase nada de História, a não ser talvez os ambientes: quando os dois soldados deixam as trincheiras e dão início à travessia da “Terra de Ninguém”, a vastidão da ruína, os corpos amontoados na lama, a miséria semeada, enfim, o horror da guerra é transmitido debaixo de um silêncio verdadeiramente opressor.
De resto, ainda que nobre a missão que assiste aos protagonistas, (salvar vidas, entre as quais a do irmão de um dos deles, aspeto que pretende trazer a lume as emoções, chamar à cena a humanidade, tentativa que, a meu ver, se dilui completamente no contexto alucinante da fita), o que subsiste é uma espécie de “videogame” de guerra em que o herói parece ter sete vidas, como é habitual nesse tipo de jogos. Decerto que a técnica, a dinâmica, os planos e contra planos, o novo(?) plano-sequência e coisas do género, podem ser pontos positivos, para os especialistas da sétima arte, mas para mim, que procuro num filme, como num livro, o que um ou outro tem para dizer sobre as pessoas, as relações e comportamentos humanos, isso não conta nada.
Trouxe comigo pouco mais que uma frase que ouvi ao coronel, na frente de batalha, no momento em que este recebe das mãos do soldado sobrevivente a famigerada carta:

A guerra só há de acabar quando houver apenas um homem de pé.




Lídia Borges