imagem: pesquisa Google
Fui ver o “1917”. Não
só porque o tema do filme prometia, (1.ª Grande Guerra), mas também porque, de
vez em quando, preciso de deixar o Netflix e o ecrã do computador para ir ao
cinema. Gosto da tela grande, do som, (Dolby Atmos, projetado a 360º), do
escurinho... por falar em escurinho: quando entrámos, as luzes já se tinham
apagado, ainda assim foi possível perceber que a sala estava praticamente
vazia. Na sombra adivinhavam-se duas ou três cabeças, lá na última
fila. Tentámos encontrar os nossos lugares, aos tropeções, mas
acabámos por desistir e sentámo-nos ao meio da sala, bem em frente à tela.
Estranhamente, no preciso momento em que o filme começa, as luzes acendem-se.
Assistimos a dez, doze minutos, (sensivelmente), da película com uma qualidade
de imagem péssima. Nas trincheiras os soldados debaixo do nevoeiro,
empalideciam, não se sabendo se por defeito da imagem se por ação dos
bombardeamentos de que eram alvo.
Foi preciso que, quem
me acompanhava, saísse do lugar e fosse lá fora procurar um funcionário que
desligasse as luzes. Desfez-se em desculpas, o homem, e disse que iria
apagá-las, de imediato. Bem... esperámos confiantes, enquanto os protagonistas,
os soldados Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay), corriam
já nas trincheiras, aturdidos, com a perigosa missão (quase impossível) que
lhes fora dada por um superior: atravessar o campo inimigo para entregar uma
carta na linha da frente, num curto espaço de tempo. Se falhassem, morreriam em
batalha milhares de soldados... E as luzes continuavam acesas! De repente,
uma porta abre-se para dar passagem a dois homens munidos de um escadote e não
sei que mais nas mãos. Uns minutos depois pudemos ver, com agrado, que o filme
até tem uma boa fotografia. Um dos funcionários veio ter
connosco, amavelmente, dando conta de que iria puxar a fita
atrás. Achámos desnecessário até porque a missão dos dois soldados britânicos
era uma verdadeira corrida contra o tempo e não queríamos atrasá-los. Era o que
faltava! Estavam já tão cansados, os rapazes!
No intervalo, para
entreter os olhos, li o panfleto que me tinham dado, à entrada:
Ir ao cinema nunca
mais será a mesma coisa graças à sala Cineplace Blue Diamond do nosso Centro.
Este espaço moderno, confortável e altamente tecnológico permite uma
experiência única que dificilmente irá esquecer.
Sim, sim! Só não li
que o bilhete é bem mais caro e que, quem quiser ver o filme, tem de pagar,
pois o mesmo não está a ser exibido noutra das muitas salas de que dispõe o Centro.
Da história contada
por Sam Mendes, indicado como candidato aos Óscares 2020, não vi quase nada de
História, a não ser talvez os ambientes: quando os dois soldados deixam as
trincheiras e dão início à travessia da “Terra de Ninguém”, a vastidão da
ruína, os corpos amontoados na lama, a miséria semeada, enfim, o horror da
guerra é transmitido debaixo de um silêncio verdadeiramente opressor.
De resto, ainda que
nobre a missão que assiste aos protagonistas, (salvar vidas, entre as quais a do
irmão de um dos deles, aspeto que pretende trazer a lume as emoções, chamar à
cena a humanidade, tentativa que, a meu ver, se dilui completamente no
contexto alucinante da fita), o que subsiste é uma espécie de “videogame” de guerra em que o
herói parece ter sete vidas, como é habitual nesse tipo de jogos. Decerto que a
técnica, a dinâmica, os planos e contra planos, o novo(?)
plano-sequência e coisas do género, podem ser pontos positivos, para os
especialistas da sétima arte, mas para mim, que procuro num filme, como num
livro, o que um ou outro tem para dizer sobre as pessoas, as relações e comportamentos
humanos, isso não conta nada.
Trouxe comigo pouco
mais que uma frase que ouvi ao coronel, na frente de batalha, no momento em que
este recebe das mãos do soldado sobrevivente a famigerada carta:
A guerra só há de
acabar quando houver apenas um homem de pé.
Lídia Borges
