Não é que
morra de amores por leituras de carácter epistolar, mas compreendo que elas possam veicular perspetivas muito interessantes relativamente à época em que ocorrem, sobretudo
se os correspondentes forem pessoas que admiramos e cuja obra concorre para um maior conhecimento do humano, em suas diversas dimensões. É o que acontece com este
"Cartas para miguel torga" cujo volume goza da vantagem de ter sido organizado por
Carlos Sousa Mendes, professor e investigador na Universidade do Minho que se tem dedicado especialmente ao estudo da literatura brasileira e da poesia portuguesa moderna e contemporânea. Encontramos neste
volume, cartas que Torga recebeu entre (1930 e 1994). O vasto e variado rol de nomes aqui reunidos é garantia do importante contributo deste epistolário para o estudo da
história literária, cultural e política do século XX português. À medida que se lêem as cartas, vai-se tomando consciência dos efeitos da censura, da perseguição política de que os artistas em geral, escritores em particular, eram vítimas privilegiadas e da forma como estes conviviam com a realidade, durante a vigência do regime da ditadura. A amizade, o convívio intelectual são também aspectos que ressaltam ao olhar do leitor, especialmente nas cartas de Vitorino Nemésio, Sophia de Mello Brayner, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço.
Além destas, há cartas de Fernando Pessoa, Óscar
Lopes, António Sérgio, Teixeira de Pascoais, Cecília Meireles, Maria Archer,
Adolfo Casais Monteiro, Mário
Soares e tantas outras, entre elas, esta que aqui trago, a única escrita
por um leitor, (do qual não foram encontradas referências), que assina Arnaldo Rodrigues, carta com o carimbo - «Cadeia Civil de Elvas - CENSURA», onde o autor revela a Miguel Torga a
impressão causada pela leitura da sua obra e pede alguns livros.
Lídia Borges

