(Duy Huynh)
Não existe uma única palavra
para dizer a morte
[sobretudo
quando vem reclamar para si
o que não lhe pertence]
e a vida vista daqui
é um rio cavado na noite, de barcos
deserta,
um dia único longuíssimo
que se prolonga
por um mar de horas iguais.
Incontáveis.
O dia nasce, a noite cai.
Luz e sombra que se revezam
sobre imagens surdas, imutáveis.
Agora que há tempo para tudo
que os relógios pararam
na dorial hora do desamparo
nem sequer sei se sou triste, assustada
ou comovida.
ou comovida.
Não se distinguem os contornos
dos sentires de cada um.
A tristura tomou tudo,
manto pardacento a embrulhar o mundo.
Perdida entre mil versos por escrever
deparo com esta página,
esta ameaça branca, espada apontada à voz
como quem mata.
Se o navio se entretece na fúria das vagas
mais e mais,
se se entrega involuntário
às terríveis armadilhas do vento,
não se prive de tocar, a orquestra.
Lídia Borges
