quinta-feira, 2 de abril de 2020

Alba


(Duy Huynh)

Vou por estes dias
desatenta e transparente
e não sinto nada 
que seja unicamente meu.
Não sinto nada.

Desmaiadas as flores
e a palavra 
longínqua como um barco
na penumbra.

Não vi de que noite
de que cais
de que sonho interrompido
o barco partiu
para as vagas medonhas 
deste mar.

Uma corda invisível
ata a fala ao silêncio,
um nó de marinheiro
que na garganta seca.

E estes olhos meus
enamorados das palavras
continuam
a rasgar buracos no escuro
à espera de pressentir a alba
do dia por nascer.


Lídia Borges