Para quem gosta de livros, deixo esta sugestão:
OLGA
TOKARCZUK
“VIAGENS”
Não é um
livro fácil. É um livro surpreendente!
Ofereceu-mo
a minha filha, no Natal passado. Ficou em lista de espera. Acabei de o ler hoje
e sinto-me como aquele viajante que, regressado da viagem, deposto o cansaço,
descobre num recanto da mala desfeita a inquietante sensação de não ter
aproveitado devidamente a passagem pelos lugares físicos e psicológicos que lhe
foram proporcionados. Este facto cria-lhe um desejo súbito de voltar atrás para
tentar recuperar tudo o que, na pressa do ver, deixou ficar sem registo. Talvez
por isso mesmo, eu, viajante de sofá, conserve o Viagens aqui ao meu lado. Voltada
que foi a última página, há umas horas, não o devolvi ainda ao seu lugar na
estante. Já o reabri umas tantas vezes. Ouvi de novo “o matraquear monótono
da diligência” onde Ludwika (irmã de Chopin) seguia, levando o coração do
pianista, dentro de um frasco com álcool, de volta para Varsóvia; testemunhei, pela segunda vez, o desnorte do homem que misteriosamente vê desaparecerem a mulher e
o filho depois de ter parado o carro onde seguiam, num lugar aberto,
praticamente deserto; revivi a determinação da mulher que viajava ao encontro de um amor da adolescência, esquecido durante décadas, para o ajudar a morrer...
Bem,
está decidido: Viagens vai ficar na prateleira dos NUNCA LIDOS onde tenho as
obras de que não consigo afastar-me por muito tempo.
Lídia Borges
