segunda-feira, 16 de março de 2020

Viagens



Para quem gosta de livros, deixo esta sugestão:
OLGA TOKARCZUK
“VIAGENS”
Não é um livro fácil. É um livro surpreendente!

Ofereceu-mo a minha filha, no Natal passado. Ficou em lista de espera. Acabei de o ler hoje e sinto-me como aquele viajante que, regressado da viagem, deposto o cansaço, descobre num recanto da mala desfeita a inquietante sensação de não ter aproveitado devidamente a passagem pelos lugares físicos e psicológicos que lhe foram proporcionados. Este facto cria-lhe um desejo súbito de voltar atrás para tentar recuperar tudo o que, na pressa do ver, deixou ficar sem registo. Talvez por isso mesmo, eu, viajante de sofá, conserve o Viagens aqui ao meu lado. Voltada que foi a última página, há umas horas, não o devolvi ainda ao seu lugar na estante. Já o reabri umas tantas vezes. Ouvi de novo “o matraquear monótono da diligência” onde Ludwika (irmã de Chopin) seguia, levando o coração do pianista, dentro de um frasco com álcool, de volta para Varsóvia;  testemunhei, pela segunda vez, o desnorte do homem que misteriosamente vê desaparecerem a mulher e o filho depois de ter parado o carro onde seguiam, num lugar aberto, praticamente deserto; revivi a determinação da mulher que viajava ao encontro de um amor da adolescência, esquecido durante décadas, para o ajudar a morrer...

Bem, está decidido: Viagens vai ficar na prateleira dos NUNCA LIDOS onde tenho as obras de que não consigo afastar-me por muito tempo.


Lídia Borges