sábado, 14 de março de 2020

A Poesia fica


Duy Huynh

I

Uma luz vivificante chama, lá fora.
As frésias os junquilhos as tulipas
abriram em dádiva,
os jarros desdobraram-se,
brancos e aprimorados,
as ervas aromáticas alegram-se
disseminando seus odores
depurativos.

II

O silêncio que vem da rua
é cheio de vestígios de pássaros 
insontes.
Já em casa deambula,
pousa seus pés cuidadosamente,
sem peso, sem pressa, sem direção.
No encontro dos dois silêncios,
o de dentro e o de fora,
uma face distinta vem desligá-los  
de experiências outras, de outras horas,
de outros dias, de outro tempo,
de outros momentos onde os sons
se diluíam em sinal de submissão
à chegada do cansaço.

É uma face nova do silêncio, esta.
Parece possuir em sua raiz encoberta
qualquer coisa que se amedronta 
que se adoenta e putrifica.
Neste novo arfar sobre todas as coisas
adivinha-se uma batalha 
a decorrer nos bastidores do sol
onde a noite arguta prepara a festa. 
Entre os desertores não se conta a Poesia.

A Poesia fica.

Lídia Borges