sexta-feira, 13 de março de 2020

Uma sede




Deixa…
Entre o esquecimento
e a maré cheia do poema
tudo há de acontecer outra vez

Um dia entras no bosque
como se nada mais
desejasses deste mundo,
agarras a infância guardada à pressa
no tronco carcomido do velho carvalho

E no teu esquecimento
faz-se dia e tu falas e ris
e pensas e tudo é rigor
sol, matéria absoluta,
todas as coisas antigas
giram em torno do seu tempo futuro

A imagem pressentida do amor
uma rosa, um verso louco, uma cítara…
bailam entre o esquecimento
e a maré cheia do poema


Tão longe do inverno estas vagas.
Coisas friáveis… uma sede!



Lídia Borges (2015:p.113), Baile de Cítaras, Poética Edições.