quinta-feira, 12 de março de 2020

Framboesas



Hoje, levantei-me mais cedo que o habitual. Ainda apanhei o Sol a nascer por detrás do monte da Santa Marta. Espessura mínima, transparência máxima, afagava com dedos mansos a ameixoeira em flor. Foi bom ouvi-los sussurrar, sem palavras, o que as palavras se esforçam por expressar, sem nunca o conseguir. 
A certa altura, falaram dos homens. Falaram, que eu sei. Não era maledicência, não. Era antes uma espécie de lamento (genuíno) sobre a egolatria das suas vidas angustiantes e infinitamente pequenas.
Depois do pequeno almoço fui ao supermercado. Queria comprar uma caixinha de framboesas. Não havia. Não havia framboesas, só gente a encher carrinhos de compras e, nas caixas registadoras filas, filas, filas... As pessoas, muito chegadinhas umas às outras, como se fosse tempo de paz. Algumas refilavam acaloradamente não cheguei a saber porquê. Só ouvi um homem gritar: "eu tenho 70 anos, eu sou idoso, sou idoso, tenho de ir à frente..." E as mulheres: "blá...blá...blá... com todos os dentes de fora, capazes de morder."

       Nem sei por que me veio à ideia Saramago e o "Ensaio sobre a Cegueira. Mas veio.

Lídia Borges


(imagem-pesquisa Google s/ ind, autoria)