segunda-feira, 13 de abril de 2020

Como um vírus


A barca em que se faz argonauta
desliza lenta em águas negras.
Irrompe da sombra
à hora suprema das estrelas.
Traz uma ânsia inquinada nos olhos.

Vem da ilha do nada, faminto de entulho.
Altivas as frontes da perfídia
e da manha.

Podia se quisesse pegar-lhe no nome
[agora que o sei]
e pô-lo a correr no vento,
de seara em seara, até ao infinito.

Podia, mas...
seria como antecipar o climax
da peça lírica que engendra
página a página.
Ficar até ao fim
até à inspiração última,
ao canto do cisne. 
Lamento belo
que precede o mergulho final.

Ficar até ao som oco dos aplausos.


Lídia Borges