segunda-feira, 6 de abril de 2020

Diário de bordo (Fragmentos)



I
O fim-de-semana passou.  Depressa por sinal. Não interessa se as articulações ardem como se estivessem prestes a incendiar-se ou a dar flor. Dar flor deve ser este frenesim, este alvoroço surdo de seiva e fogo, imagino eu. Não interessa. Interessa que sobrevivi, mais uma vez. Consegui fazer por ti o que já não podes fazer por ti. Tudo.  Amanhã a dona Maria virá, de novo, para mais uma semana de trabalho. Ficarei mais liberta para as minhas coisas; as minhas coisas de ler, de escrever, de pintar, as minhas coisas de perscrutar o mundo. Provavelmente amanhã, a esta hora, estarão menos rígidas as articulações que hoje me doem. Será a vez da alma se desarticular e reafirmar sem equívocos, espero eu, a sua invisível corporalidade.

II
Gostava muito de ir ver-vos. 
Fazer aquela viagem que preparámos meticulosamente, no encalço das tulipas, dos moinhos,  aquele nosso encontro, a meio caminho, para nos vermos uns aos outros, para nos abraçarmos como nos prometemos no Natal. Saída, dia 8 de Abril. Destino, Haia. Não, não é necessário arejar as malas.

Vemo-nos no Skype, no WhatsApp, amanhã, como hoje, como ontem.

Vemo-nos. Temo-nos.