Chegou devagarinho,
leve, batendo as
asas.
Pousou num estreito facho de luz
que atravessava a janela. Deteve-se
bem perto dos meus olhos.
Cirandou, rodeou, zumbiu, sondou,
fez tenção de pousar-me no
nariz.
Não conseguiu,
havia um vidro a separar-nos.
Porém, ficou de tal modo próxima
que lhe vi a alma, por dentro.
Tinha a cor violeta
de uma saudade sozinha
Olheiras a sublinhar o
pensamento
e transbordava de [des]saberes
Era a palavra poema em hora-não.
Não a recolhi. Fiquei a vê-la afastar-se
sobrevoando de perto as orquídeas.
Insinuava-se
ainda.
Vi como hesitou na taça dos
catos
como namorou os cálices lácteos
dos jarros
como tentou seduzir a macieira em flor.
como tentou seduzir a macieira em flor.
Por fim sem amparo descampou
por cima do muro.
Fiquei a ponderar se… se da
próxima vez…
Talvez…
Talvez então não pesem as
sílabas
tanto assim
ao ponto de não ser eu
capaz de
movê-las.
Lídia Borges
