domingo, 5 de abril de 2020

Sílabas



Chegou devagarinho,
leve, batendo as asas.

Pousou num estreito facho de luz
que atravessava a janela. Deteve-se
bem perto dos meus olhos.
Cirandou, rodeou, zumbiu, sondou,
fez tenção de pousar-me no nariz.
Não conseguiu,
havia um vidro a separar-nos.
Porém, ficou de tal modo próxima
que lhe vi a alma, por dentro.

Tinha a cor violeta
de uma saudade sozinha
Olheiras a sublinhar o pensamento
e transbordava de [des]saberes
Era a palavra poema em hora-não.

Não a recolhi. Fiquei a vê-la afastar-se
sobrevoando de perto as orquídeas. 
Insinuava-se ainda.
Vi como hesitou na taça dos catos
como namorou os cálices lácteos dos jarros
como tentou seduzir a macieira em flor.
Por fim sem amparo descampou
por cima do muro.

Fiquei a ponderar se… se da próxima vez…
Talvez…
Talvez então não pesem as sílabas
tanto assim
ao ponto de não ser eu 
capaz de movê-las.


Lídia Borges