sexta-feira, 17 de abril de 2020

Só a Poesia




Dou com os corpos
suspensos, sonolentos,
iguais ao húmus de lagos 
distantes. Solitários.
De que prisões
de que amarras
de que sedes
se libertam assim os corpos
sem que o percebamos?

Acreditamos em hinos,
por vezes,
em grandes amores, 
viagens, 
consumimos literatura, matéria insólita,
acreditamos em gigantes e duendes,
em boas vontades,
em mudanças, em lições,
enquanto, invariavelmente,
somos mais e mais fechados em nós, 
a sós.

Só a poesia me reclama
Só a poesia me declama
Só ela, sóis e luas, 
pedras, moinhos, ventos, águas...
Só a fala poética me reza 
inauditos vestígios do porvir
trilhos invisíveis no fascínio dos limos
e dos passos que não sei.


Lídia Borges