Benedito Luizi (1933). "Mar Revolto"
Pouso, ave em rocha deserta.
Repouso inquieta
na urgência de me encontrar
barro e dessabença.
Preciso de sacudir
os ecos de espuma dos cabelos
as feições feias do mundo
os muros os uivos os lobos.
Podar as raízes das ingratidões,
deixá-las secar
como restolho ao sol feroz de verão.
Desmantelar frases turvas
turbações.
Esvaziar o coração,
desvanecer nuvens e lagos e lágrimas
quebras de pálpebras
aniquiladas.
Dessaber os trevos
os mitos as crenças os gritos
as chamas.
E quando,
órfã de tudo,
reaprender passo por passo
o andar.
Ir devagar ateando
a minha sombra
a minha luz
nas sílabas bebidas
da Serenidade.
Salgadíssima,
pois que toda ela feita de mar.
Lídia Borges
