sábado, 2 de maio de 2020

Serenidade


Benedito Luizi (1933). "Mar Revolto"


Pouso, ave em rocha deserta.
Repouso inquieta
na urgência de me encontrar
barro e dessabença.

Preciso de sacudir 
os ecos de espuma dos cabelos
as feições feias do mundo
os muros os uivos os lobos.

Podar as raízes das ingratidões,
deixá-las secar 
como restolho ao sol feroz  de verão.
Desmantelar frases turvas
turbações.

Esvaziar o coração,   
desvanecer nuvens e lagos e lágrimas
quebras de pálpebras
aniquiladas.
Dessaber os trevos
os mitos as crenças os gritos
as chamas.

E quando,
órfã de tudo, 
reaprender passo por passo 
o andar.
Ir devagar ateando
a minha sombra
a minha luz
nas sílabas bebidas
da Serenidade.

Salgadíssima, 
pois que toda ela feita de mar. 


Lídia Borges