quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Nesta data, querida




Hoje, o dia nasceu pardacento, chuvoso, um vento irrequieto a perturbar intencionalmente as folhas da magnólia.  É um tempo estranho, este, filha. Como se não bastasse a barbaridade de um vírus maligno, por aí à solta, ainda vem essa tal  tempestade "Bárbara" disposta toldar-nos mais ainda o ânimo e o pensamento. Não sei se chovia ou fazia sol no dia em que nasceste. Mas sei que, na memória, se esvaneceu quanto de existência eu tivera, antes de ti.



Chove, mas acontece que eu penso quase sempre com o coração, (não há volta a dar), e no coração grassa, hoje, uma claridade que nada tem a ver com a meteorologia das últimas horas. É uma "coisa boa" que dispensa  outro nome porque, contrariamente ao que se diz, há coisas que existem sem necessitarem de uma única palavra. É um halo de candura que vem de ti. E me é tão misteriosamente interior. Por vezes, penso que, se eventualmente não tivesses ido construir o teu ninho nesse país longínquo, de paisagens geladas, de duendes e fadas, talvez nem soubéssemos bem, eu e tu, quanto o estar próximo nos é caro. É que a distância e a proximidade, como bem sabes, minha filha, nem sempre estão sujeitas à redutora medição dos quilómetros. 




(Amo-te, FlorAté já)