quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Diospireiro (I)


(pintura: Silvia Brum)


Já um dia, transplantei para um poema

o diospireiro da minha rua.

Tem, por esta época o aspeto

de tudo o que é belo. Sobrevém

o despojamento dos braços 

a poesia dos frutos,

 

redondos e chamejantes

assim expostos à luz ténue

de um sol que envelhece.

Falei do diospireiro…

mas hoje a minha atenção

passou através de seus ramos sem folhas

 

e foi demorar-se na senhora de idade

por dentro dos vidros,

na casa atrás da exótica árvore.

Daqui de longe, de onde a observo,

pareceu-me, há pouco, que sorria. Sim, sorria,

tenho a certeza de que sorria…

 

De súbito, uma perturbação, um novelo

a desembaraçar-se no peito, a comover-me

profundamente. Solidão, lonjura, estranheza?

No ramo mais alto do tempo

é sempre possível arrancar do ar

um fruto luzente para dulcificar o sorriso.

Foi o que me quis dizer aquela idosa

de quem mal sei o nome.  

 

Lídia Borges