Já um dia, transplantei para um poema
o diospireiro da minha rua.
Tem, por esta época o aspeto
de tudo o que é belo. Sobrevém
o despojamento dos braços
a poesia
dos frutos,
redondos e chamejantes
assim expostos à luz ténue
de um sol que envelhece.
Falei do diospireiro…
mas hoje a minha atenção
passou através de seus ramos
sem folhas
e foi demorar-se na senhora de idade
por dentro dos vidros,
na casa atrás da exótica árvore.
Daqui de longe, de onde a observo,
pareceu-me, há pouco, que sorria. Sim,
sorria,
tenho a certeza de que sorria…
De súbito, uma perturbação,
um novelo
a desembaraçar-se no peito,
a comover-me
profundamente. Solidão, lonjura,
estranheza?
No ramo mais alto do tempo
é sempre possível arrancar do ar
um fruto luzente para dulcificar
o sorriso.
Foi o que me quis dizer
aquela idosa
de quem mal sei o nome.
Lídia Borges
