domingo, 6 de dezembro de 2020

Na primeira travessa ao lado da igreja



 I


Percorro as ruas da cidade

Aonde vou? Não sei. Levam-me os pés. 

Deixo-me conduzir.

Coração e passos desatados do cérebro.

Sei, contudo, que voltarei à direita ali,

na primeira travessa, ao lado da igreja.

Passo junto das Teresinhas:

“cinco tostões de aparas de hóstia.”

e brincamos às missas, crianças que somos,

e comungamos o que sobrou do que será,

num destes domingos, o Corpo de Cristo

Colam-se-nos ao palato, insípidas.

Risos, as mãos postas - "Amém!"

Abraço carinhosamente a lembrança.



II

Em frente do n.º 29

fixo as varandas e não me vejo. Nem a avó:

"Não te debruces, menina".

Suspensa ainda a renda rasgada que fora cortina,

as paredes gastas, as portadas 

um escamado castanho, um tom sujo e frio.

Vislumbres, lampejos:

vejo-me subir a escada sob a claraboia,

estranhar os plintos nos patamares

sem os vasos de avencas,

percorrer o corredor comprido e sombrio,

à direita. Deixar a porta 

do quarto da avó fechada, à esquerda,

atravessar a sala, em direção ao pátio, à luz.

Onde os ramos da cerejeira que subiam do quintal,

os gatos, os catos, os pombos?

No coradouro da roupa branca,

a rede quebrada não se libertou completamente

do caixilho de madeira desengonçado…



III

Foi só um instante de divagações,

um desarranjo breve na ordem dos tempos.

Os pés já retomaram a marcha,

já dobraram a esquina sob o olhar de pedra 

de D. Pedro V, lá no alto do seu pedestal,

no centro do Campo Novo,

já passaram a mercearia do sr. Palha

trancada num desolado queixume.

Irmão que é desta rajada de vento gélida e súbita

a fazer-me regressar, apressadamente.

E o cérebro, metade sal metade cal,

questiona o coração:

os pés perderam o tino? De que andam à procura?

O coração finge não ouvir. Não responde.

Mas sabe.

Só o coração sabe.

 


Lídia Borges


(imagem: Pinterest s/ ind. autoria)