I
Percorro as ruas da cidade
Aonde vou? Não sei. Levam-me os pés.
Deixo-me conduzir.
Coração e passos
desatados do cérebro.
Sei, contudo, que
voltarei à direita ali,
na primeira travessa, ao
lado da igreja.
Passo junto das Teresinhas:
“cinco tostões de aparas
de hóstia.”
e brincamos às missas, crianças que somos,
e comungamos o que sobrou do que será,
num destes domingos, o Corpo de Cristo.
Colam-se-nos ao palato, insípidas.
Risos, as mãos postas -
"Amém!"
Abraço carinhosamente a
lembrança.
II
Em frente do n.º 29
fixo as varandas e não
me vejo. Nem a avó:
"Não te debruces,
menina".
Suspensa ainda a renda
rasgada que fora cortina,
as paredes gastas, as portadas
um escamado castanho, um tom sujo e frio.
Vislumbres, lampejos:
vejo-me subir a escada sob a claraboia,
estranhar os plintos nos patamares
sem os vasos de avencas,
percorrer o corredor
comprido e sombrio,
à direita. Deixar a
porta
do quarto da avó
fechada, à esquerda,
atravessar a sala, em
direção ao pátio, à luz.
Onde os ramos da cerejeira que subiam do quintal,
os gatos, os catos, os pombos?
No coradouro da roupa branca,
a rede quebrada não se libertou completamente
do caixilho de madeira desengonçado…
III
Foi só um instante de divagações,
um desarranjo breve na
ordem dos tempos.
Os pés já retomaram a
marcha,
já dobraram a esquina sob o olhar de pedra
de D. Pedro V, lá no alto do seu pedestal,
no centro do Campo Novo,
já passaram a mercearia do sr. Palha
trancada num desolado queixume.
Irmão que é desta rajada de vento gélida e súbita
a fazer-me regressar, apressadamente.
E o cérebro, metade sal
metade cal,
questiona o coração:
os pés perderam o tino?
De que andam à procura?
O coração finge não
ouvir. Não responde.
Mas sabe.
Só o coração sabe.
Lídia Borges
(imagem: Pinterest s/ ind. autoria)
