terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Amos e servos

 


Tenho os pés tão perfeitamente

adaptados ao solo

que nenhuma metáfora

hoje poderá coincidir

com este exercício de escrita.


Não trarei tempestades,

tão-pouco do tempo solar

possuo a mínima notícia.

 

Falo do que vejo:

um casal de melros em passinhos ligeiros

por cima do muro. Ela à frente, lampeira, 

ele atrás, vaidoso, mantendo uma distância 

cautelosa.

Podendo voar, caminham seguros

como se propriedade sua, o muro, o mundo.

 

É que nem um gato se adivinha

na lassidão fria dos dias.

Fico a perguntar-me se não terão razão

aqueles dois, andarilhando livres por aí.

Se não serão donos de si, do muro, do mundo

muito mais do que eu.

Não é nova a questão.

Já a havia feito, ontem

quando meus olhos depararam

com a lebre, ali parada, entre as árvores

a fitar-me com uma desfaçatez imprópria.

Nunca antes vira coisa assim.

 

E ali estávamos nós:

eu, em cativeiro, ela a observar-me

atentamente como se agora eu,

o animal indefeso, 

perseguido.


Lídia Borges