Tenho os pés
tão perfeitamente
adaptados ao solo
que nenhuma
metáfora
hoje poderá
coincidir
com este exercício
de escrita.
Não trarei
tempestades,
tão-pouco do
tempo solar
possuo a mínima notícia.
Falo do que
vejo:
um casal de
melros em passinhos ligeiros
por cima do muro. Ela à frente, lampeira,
ele atrás, vaidoso, mantendo uma distância
cautelosa.
Podendo voar, caminham seguros
como se propriedade
sua, o muro, o mundo.
É que nem um
gato se adivinha
na lassidão fria dos
dias.
Fico a
perguntar-me se não terão razão
aqueles dois, andarilhando
livres por aí.
Se não serão donos de si, do muro, do mundo
muito mais do que eu.
Não é nova a questão.
Já a havia feito, ontem
quando meus
olhos depararam
com a lebre,
ali parada, entre as árvores
a fitar-me com
uma desfaçatez imprópria.
Nunca antes vira coisa assim.
E ali estávamos
nós:
eu, em cativeiro, ela a observar-me
atentamente como se agora eu,
o animal indefeso,
perseguido.
Lídia Borges
