sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Eu preciso ser a outra



Perdoem-me se não sou toda

em tudo que aqui se inscreve

mas não posso ser apenas

aquela que estende a roupa

compra o leite, o pão, o peixe

acende o lume, faz a sopa.

 

Eu preciso ser a outra,

a que observa a primeira

nas lides do dia-a-dia

e lhe estima o sentimento.

Dores, rigores, riso, alegria

tudo num tubo de ensaio

e o efeito que já se previa:

tanto de suor como de amor.

Era o que, em relatório, se lia.

 

Eu preciso ser a outra

a que nunca sabe as horas 

e se isenta, se ausenta

e inventa mil histórias.

A que planta em sebentas

sílabas de fazer nascer

entre brados e canseiras

trevos, trigo, sementeiras.

 

Eu preciso ser 

a que do cardo cria as rosas

para dar às borboletas

e, de uma pétala, a borboleta

para que não falte às rosas

nem aos cardos nas valetas.  

 

Eu preciso ser a outra

a que sonha, a que delira

a que grita e se revolta

a que cai e se levanta

a que luta, a que duvida

a que crê, a que se espanta.

 

Por vezes, eu sou a outra

Aquela, [todas] que sou.

A que à hora do sol-posto                             

a si própria encontrou

refeita na lucidez.

E de tantas, é só uma.

Esta, [muitas] que aqui vês!


Lídia Borges, (reeditado)


Tenho feito um exercício que me é, quase sempre difícil, por vezes até doloroso que consiste em reler o que escrevi em tempos outros. Difícil e doloroso porque me revela os humores, os amores e dasamores  de uma caneta há muito sem tinta. Contudo, por vezes, não consigo deixar de esboçar um sorriso de cumplicidade.