Perdoem-me se não sou toda
em tudo que aqui se
inscreve
mas não posso ser apenas
aquela que estende a roupa
compra o leite, o pão, o
peixe
acende o lume, faz a sopa.
Eu preciso ser a outra,
a que observa a primeira
nas lides do dia-a-dia
e lhe estima o sentimento.
Dores, rigores, riso,
alegria
tudo num tubo de ensaio
e o efeito que já se
previa:
tanto de suor como de
amor.
Era o que, em relatório,
se lia.
Eu preciso ser a outra
a que nunca sabe as
horas
e se isenta, se ausenta
e inventa mil histórias.
A que planta em sebentas
sílabas de fazer nascer
entre brados e canseiras
trevos, trigo,
sementeiras.
Eu preciso ser
a que do cardo cria as rosas
para dar às borboletas
e, de uma pétala, a borboleta
para que não falte às
rosas
nem aos cardos nas
valetas.
Eu preciso ser a outra
a que sonha, a que delira
a que grita e se revolta
a que cai e se levanta
a que luta, a que duvida
a que crê, a que se
espanta.
Por vezes, eu sou a outra
Aquela, [todas] que sou.
A que à hora do sol-posto
a si própria encontrou
refeita na lucidez.
E de tantas, é só uma.
Esta, [muitas] que aqui vês!
Lídia Borges, (reeditado)
Tenho feito um exercício que me é, quase sempre difícil, por vezes até doloroso que consiste em reler o que escrevi em tempos outros. Difícil e doloroso porque me revela os humores, os amores e dasamores de uma caneta há muito sem tinta. Contudo, por vezes, não consigo deixar de esboçar um sorriso de cumplicidade.
