sábado, 23 de janeiro de 2021

"Luzes de presença"

 


A casa é porto de abrigo,

mas também o cárcere que não sonhávamos.

Isabel Cristina Mateus

 

 

Um grito rasga subitamente a tranquilidade da tarde. Estranho, mas não entranho. Uma carrinha da polícia aproxima-se e percorre a rua, devagar. Uma voz arrastada ordena ao megafone: “Fique em casa!” E mais umas quantas instruções, uma lista de sintomas que já ouvimos repetidamente na televisão e por todo o espaço internáutico.

Escuto do alto da minha varanda esta voz. A repetição arrastada da ordem. O carro da polícia desliza devagar ao longo da rua onde apenas um homem caminha no passeio. Um arrepio de incomodidade percorre-me a pele, como se, de repente, tivesse sido transportada para um território desconhecido, transplantada para um cenário de guerra ou de ficção científica. Por momentos, a minha rua é um cenário improvável, algures entre as distopias repressivas de Orwell ou Ray Bradbury e a cidade de Contágio, o filme de pesadelo que a actualidade pandémica tornou real. Em qualquer dos casos, sons caóticos, ruídos que me afastam dos blues deste dia.

Estrangeira na minha própria rua, é assim que me sinto. O silvo angustiado, urgente, de uma ambulância corta o silêncio da rodovia. Fico tão perturbada que abandono a varanda e me fecho no interior, fugindo dos sons dissonantes da emergência. A banda sonora desta nova temporada.

A música como os filmes os livros a literatura são um bem essencial. Preciso de me abastecer de sons humanos, de vozes, piano ou contrabaixo, de jazz ou de blues, tanto faz. De colher imagens, descendo sobre a rua como os flocos de neve da minha infância. Preciso de açambarcar palavras que me devolvam as sensações, o calor da vida. De palavras que me façam ler até me arderem os olhos os poemas inconjuntos de Caeiro. Preciso da escrita, crónica ou Bluette, pétalas de palavras desfolhadas ao vento de cada dia. Preciso de voltar à realidade espantosa das coisas. Ao espanto do mundo que perdi.

 

Isabel Cristina Mateus (2021: p. 121), Janela Indiscreta/Crónicas da Emergência

***


Abro-o ao acaso porque em todas elas, nas 45 crónicas publicadas neste volume, há pontos de contacto, momentos em que nos identificamos total ou parcialmente, onde nos vemos a nós próprios, diante de uma janela/varanda, observando um mundo em que tudo o que era, deixou de ser. Um “olhar interior” que, sendo particular, é também global na medida em que traduz o sentimento comum, perante a ameaça pandémica que nos rodeia.

Recebi-o à porta, das mãos da autora, por quem nutro grande admiração. Foi constrangedor ter de inibir o abraço, guardar para um depois indeterminado o café, o doce, a conversa [que não ao postigo] há muito adiada, as bocas desimpedidas para o sorriso… Tive pena!

Folheei-o, de lés a lés, li pedacinho aqui e ali, (dado já as havia lido, uma a uma, na integra, à medida que iam sendo escritas), perdi-me nas ilustrações do pintor espanhol Miguel Elías, percorri o mapa dos lugares da narrativa, como se me levassem os passos, realidade adentro, a começar no “doce lar”, um desenho com meia dúzia de riscos enlaçados, uma árvore sozinha na rua, afinal, o lugar a partir do qual estas “Crónicas da Emergência” vão emergindo, (uma por dia), dando conta das inseguranças, das angústias, das incertezas, da instabilidade do primeiro período de confinamento a que esta pandemia nos sujeitou e continua a sujeitar, agora, (take 2), de forma mais penosa ainda, diria eu, pois que, apesar das “benditas” vacinas no horizonte, o cansaço e o desânimo são maiores, menos suportáveis, à medida que o vírus se revigora e se "consola".

 

Sobre este livro, Fernando Pinto do Amaral escreve no prefácio: “ (…) [S]abemos que o vírus do medo não tem cura, mas há consideráveis paliativos na arte, na música, na escrita, na leitura – luzes de presença, tal como a “luz de presença” da poesia. E cada uma destas crónicas de Isabel Cristina Mateus é certamente uma delas.

 

Concordo. Daí que... tenho [re]leitura certa para os próximos dias!

 

Lídia Borges