quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Eu oiço



Vejo como a noite desce do teto.

Sua gravidade comeu-me a língua,

desampliou-me,

abreviou minhas intenções

de orvalho.

 

Verifico as incompetências

para o lavradio das horas.  

Meu horizonte é um alfabeto 

de andorinhas por vir.

 

Ocupa-me o  inseto azoado 

que veio morar em meu ouvido.

Zune, insubmisso

Tesouras esporeadas no vento

estão a devorar-lhe as asas. Eu oiço.


Em breve calar-se-á.



Lídia Borges



(imagem:  Ilya Ibryaev)