terça-feira, 19 de janeiro de 2021

"Foram muitos anos. Ainda me custa".

 


Haviam recuperado a casa,

uma meia construção desabitada.

Era agora dele. A sua casa de cimento

pintada de azul.

 

Comeu à mesa, tomou banho,

a água morna

a percorrer-lhe o corpo,

o felpo afável da toalha, o pijama

que lhe fora oferecido.

Olhou a cama.

Dormira anos a fio

noutra sempre pronta,

feita de cartão e chão

ao relento.

 

Foi à beira de se deitar

que o pressentiu,

os dentes a morderem o medo,

um bicho rebelde

por dentro das veias

a subir-lhe ao coração.

 

Abriu portas e janelas.

Tinha esperança

que seu teto de luar e estrelas

pudesse vir ainda

embalar-lhe os sonhos.


"Foram muitos anos,

ainda me custa." - Cogita.



Lídia Borges