Haviam recuperado a casa,
uma meia construção desabitada.
Era agora dele. A sua casa de cimento
pintada de azul.
Comeu à mesa, tomou banho,
a água morna
a percorrer-lhe o corpo,
o felpo afável da toalha, o pijama
que lhe fora oferecido.
Olhou a cama.
Dormira anos a fio
noutra sempre pronta,
feita de cartão e chão
ao relento.
Foi à beira de se deitar
que o pressentiu,
os dentes a morderem o medo,
um bicho rebelde
por dentro das veias
a subir-lhe ao coração.
Abriu portas e janelas.
Tinha esperança
que seu teto de luar e estrelas
pudesse vir ainda
embalar-lhe os sonhos.
"Foram muitos anos,
ainda me custa." - Cogita.
Lídia Borges
