sábado, 16 de janeiro de 2021

Diário de bordo

 

Cada vez mais, sinto a necessidade de dar tempo à palavra a fim de que encontre por si o melhor caminho para o difícil ato de "dizer". Fico à espera que me instrua nas páginas deste tempo contaminado e me deixe tomar consciência dos efeitos que terá sobre mim e sobre os outros.

Leio Poesia. Adquiri A Íris Selvagem e  Averno de Louise Glück, há já uns tempos, e nunca mais acabo de os ler – The body / cowers in the dreamlike underbrush – leio romance, (estou com a surpreendente vitalidade narrativa de Bernardine Evaristo).

Leio artigos e recensões críticas, pinto, às vezes canto baixinho, às vezes penso e coleciono pontinhas de pensamentos soltos que hei de saber atar, quando as palavras quiserem.

           Ando em revisitações por outras épocas da História em que a Humanidade foi ameaçada por guerras, pragas, pestes, epidemias. Interessei-me, mais profundamente, por obras como o Triunfo da Morte, (1562) que, sem particular emoção, me passou diante dos olhos no Museu do Prado, a Dança da Morte de Giacomo Borlone de Buschis, (1485). Nomes que, nas circunstâncias atuais, ganham dimensões de inesperada amplitude. 

Livros do fundo da estante vieram à superfície, com diferente tonalidade, também, e até O Grito de Edvard Munch com que deparei por acaso numa pesquisa, me surgiu, mais do que nunca, audível. Paul Celan tem também um momento de regressar, para dentro das horas. Gosto da poesia que nos deixou, gosto do dom de libertar as palavras de dramatismos, entoando sabiamente o dramático de uma vida (a sua e a de muitas outras vítimas do nazismo), em que a Morte podia ter nome de flor.


Assim, tenho andado por aqui e por ali em casa ou se quiserem, viajando por estradas de papel que conseguem ser tão ou mais mundo que o real.

 

Às vezes ardem-me os olhos. Quando assim é vou pintar “coisas” próprias de olhos cansados. Imaginam, além do visível. Gostava de saber pintar as "coisas" da alma, que exigiriam, por certo, outra mais difusa e obscura paleta para representar monstros como a doença, a fome, o luto, a desorientação dos que perderam os sonhos, as incertezas e a brutal dificuldade de sobrevivência de tantos, subjugados ao peso do presente, ao fantasma do futuro com suas garras e rugidos de animal ferido. 

Acredito que a Poesia voltará a contrariar Adorno, o poeta que, após Auschwitz, a pensou mergulhada nas trevas para sempre, um insuportável silêncio no coração dos homens. Acredito na Poesia do Homem.  


Às vezes, vou lá fora, ao pátio nas traseiras, ao jardim do outro lado. Há sol e azul bastantes para a arália-japonesa exibir seus cachos frondosos e a orquídea discreta, que nunca floriu, ensaiar os primeiros laivos de cor. Tristonhos continuam os catos. Não admira. "Está um frio de rachar".

Lídia Borges




(imagens: janela(óleo sobre tela), de minha autoria;

 fotos tiradas hoje com tm.)