
“Crisântemos brancos”, detalhe da obra de Ito Jakuchu (1716 – 1800)
As imagens são aves abatidas
que se
precipitam do céu noturno.
Batem-nos nos
corpos como chuva de pedra
e deixam marcas
irreparáveis
a abrir para
dentro do coração.
As imagens são girândolas
de cristais
trespassados por
luzes frias, azuis
volteando sôfregas, ferindo como gritos.
Dir-se-ia que
deflagrara um súbito inferno
na forja insustentável
das horas.
Dir-se-ia que
uma multidão de sílabas ensandecida
viera silente lançar o caos
na habitual monotonia das mãos.
Dir-se-ia que
momentaneamente
do poema se via o mundo todo.
Respiro fundo.
Um crisântemo
pálido metálico cresce
no centro da
imagem que me fixa.
Um crisântemo. Não um lírio.
Lídia Borges