quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Crisântemo

                               “Crisântemos brancos”, detalhe da obra de Ito Jakuchu (1716 – 1800)


As imagens são aves abatidas

que se precipitam do céu noturno.

Batem-nos nos corpos como chuva de pedra

e deixam marcas irreparáveis

a abrir para dentro do coração.

 

As imagens são girândolas de cristais

trespassados por luzes frias, azuis

volteando sôfregas, ferindo como gritos.

Dir-se-ia que deflagrara um súbito inferno

na forja insustentável das horas.

 

Dir-se-ia que uma multidão de sílabas ensandecida

viera silente lançar o caos 

na habitual monotonia das mãos.

Dir-se-ia que momentaneamente

do poema se via o mundo todo.

 

Respiro fundo.

Um crisântemo pálido metálico cresce

no centro da imagem que me fixa.

Um crisântemo. Não um lírio.

 

 

Lídia Borges