sábado, 20 de março de 2021

Deve ser de longe

 Stephen John Darbishire



Uma qualquer nostalgia desliza no rosto suspenso do presente. Nada que se assemelhe a tristeza, porém. É de uma natureza outra, essa nostalgia, quase afago, quase música. Vem, não sei de onde, mas deve ser de longe, [é de longe, com certeza] e traz vozes que são minhas. Distingo perfeitamente a do pai entre outras, como se nunca se tivesse apagado, [e nunca se apagou, verdadeiramente], mas não chego a entender o que diz, neste Agora porque o gato vem repentinamente afiar as unhas na pele seca da Realidade, roçagar-se nas pernas frouxas da nostalgia, nas portas entreabertas da saleta. A luz macia do fim de tarde fende ao de leve a parede, com uma estreita espada de prata. Abro com ela o silêncio regressado. Recolho uns versos para dizer: Saudade.

[...]

Lídia Borges