Uma qualquer nostalgia desliza no rosto suspenso do presente.
Nada que se assemelhe a tristeza, porém. É de uma natureza outra, essa
nostalgia, quase afago, quase música. Vem, não sei de onde, mas deve ser
de longe, [é de longe, com certeza] e traz vozes que são minhas.
Distingo perfeitamente a do pai entre outras, como se nunca se tivesse apagado,
[e nunca se apagou, verdadeiramente], mas não chego a entender o que diz, neste Agora porque o gato vem repentinamente afiar as unhas na pele seca da Realidade,
roçagar-se nas pernas frouxas da nostalgia, nas portas entreabertas da saleta. A luz macia do
fim de tarde fende ao de leve a parede, com uma estreita espada
de prata. Abro com ela o silêncio regressado. Recolho uns versos para
dizer: Saudade.
[...]
Lídia Borges
