sexta-feira, 26 de março de 2021

Em busca da rima

 (imagem s/ ind. autoria)

De como certos poemas trazem resquícios esquecidos

ao tampo da mesa.

De como arrastam, qual vaga impetuosa,

os plásticos indestrutíveis do fundo do oceano

os restos de corais trucidados 

os  soturnos abismos de cavalos marinhos

os peixes de olhos esbugalhados, ainda vivos

os polvos camuflados de nuvem e fingimento.

 

E tu pegas no poema, fugidio, a escorrer água salgada,  

e reúnes todas as pontas de prata possíveis

à superfície das mãos para iluminares a paisagem.

O tampo da tua mesa é, por vezes,

um vasto mundo e as palavras abrangem somente

a configuração mínima da voz que tateias.

As tuas mãos reciclam, compõem, reparam,

as tuas mãos navegam, soberanas, entre escombros. 

 

São remos em busca da rima na placenta das águas.



Lídia Borges