(imagem s/ ind. autoria)
De como certos poemas trazem
resquícios esquecidos
ao tampo da mesa.
De como arrastam, qual vaga impetuosa,
os plásticos indestrutíveis do
fundo do oceano
os restos de corais trucidados
os soturnos abismos de cavalos marinhos
os peixes de olhos esbugalhados,
ainda vivos
os polvos camuflados de nuvem e fingimento.
E tu pegas no poema, fugidio, a
escorrer água salgada,
e reúnes todas as pontas de prata possíveis
à superfície das mãos para iluminares a paisagem.
O tampo da tua mesa é, por vezes,
um vasto mundo e as palavras abrangem somente
a configuração mínima da voz que tateias.
As tuas mãos reciclam,
compõem, reparam,
as tuas mãos navegam, soberanas, entre escombros.
São remos em busca da rima na placenta das águas.
Lídia Borges
