quarta-feira, 10 de março de 2021

Fugas

                                                                                                               (Water Lilies, 1895, Isaac Levitan)


Também de fugas se faz o poema

entre o possível lilás da urze

e a insanável soturnidade 

de um céu vago de estrelas

 

Também de matéria mineral

se faz o poema e nele se deixa 

a zunir contra o vento

o grito da ave, o uivo surdo da faca.

 

Não o situes, portanto

à mão de um lápis rombo

que o amoleça.

 

Melhor deixá-lo esmorecer

no leito ruidoso

de um silêncio

perdido de rédeas e margens.



Lídia Borges