sexta-feira, 16 de abril de 2021

Chave

 


Tudo o que sei é que moras num poema.

Mas não lhe conheço endereço certo,

número da porta, rua, cidade, país…

Tudo o que sei é que abrigas

múltiplos ocasos.

 

A chave que possuo é de sílabas átonas,

matéria frágil e volúvel, acento em falta

no verso que desconheces 

e te desconhece.

 

Tudo o que sei configura-se no que [pre]sinto:

traços teus nas avenidas do pensamento. Vacilante.

A cada arfar do planeta, a cada batida do coração

a cada segundo que se esvai, abrevia-se 

a faculdade de te nomear. Naturalmente.

 

Ontem parecias vigilante junto à porta azul,

[azul porque tinha ares de rio, ainda que não o navegasses],

Esperavas que eu a descerrasse, talvez.

A chave que me é pertença, já o disse,

abre todos os poemas onde não moras.

Os restantes… restam. Cedem a chaves outras.

É nesses que te encontras. É nesses que te perco.


Lídia Borges

(imagem: Pinterest)