Tudo o que
sei é que moras num poema.
Mas não lhe
conheço endereço certo,
número da
porta, rua, cidade, país…
Tudo o que sei é que abrigas
múltiplos
ocasos.
A chave que
possuo é de sílabas átonas,
matéria
frágil e volúvel, acento em falta
no verso que
desconheces
e te
desconhece.
Tudo o que
sei configura-se no que [pre]sinto:
traços teus
nas avenidas do pensamento. Vacilante.
A cada arfar
do planeta, a cada batida do coração
a cada
segundo que se esvai, abrevia-se
a faculdade
de te nomear. Naturalmente.
Ontem
parecias vigilante junto à porta azul,
[azul porque
tinha ares de rio, ainda que não o navegasses],
Esperavas
que eu a descerrasse, talvez.
A
chave que me é pertença, já o disse,
abre todos
os poemas onde não moras.
Os restantes…
restam. Cedem a chaves outras.
É nesses que
te encontras. É nesses que te perco.
Lídia Borges
(imagem: Pinterest)
