quinta-feira, 15 de abril de 2021

Poema 15

 






     Por mais obscuros que sejam os tempos e os caminhos, a poesia não pode ser reduzida à mera gestão da miséria humana. Ela permite a Imaginação.

 






15.

O poema vacila.

Não teme fúrias de ventos,

 rumorejos de rio, sussurros de brisa,

 cor de flor, lágrima de mulher,

mas desabriga palavras ferozes –

político, banqueiro, vampiro, guerra, sangue.

Não digere a palavra submissão.

 

O poema suporta peso e transparência

de rio. Às vezes até riso de crocodilo

e despropósitos de poeta,

o poema suporta.

O que ele não sustenta

 é tatear no dorso curvo de um verso

o arrepio constrito do medo

entrincheirado 

nas entrelinhas dos verbos por abrir.


Lídia Borges (2021:p.27), Que farei com este azul que me beija, Poética/Grupo Editorial.