Por mais obscuros que sejam os tempos e os caminhos, a poesia não pode ser reduzida à mera gestão da miséria humana. Ela permite a Imaginação.
15.
O poema vacila.
Não teme fúrias de ventos,
rumorejos de rio, sussurros de brisa,
cor de flor, lágrima de mulher,
mas desabriga palavras
ferozes –
político, banqueiro,
vampiro, guerra, sangue.
Não digere a palavra submissão.
O poema suporta peso e
transparência
de rio. Às vezes até riso de
crocodilo
e despropósitos de poeta,
o poema suporta.
O que ele não sustenta
é tatear no dorso curvo de um verso
o arrepio constrito do medo
entrincheirado
nas
entrelinhas dos verbos por abrir.
Lídia Borges (2021:p.27), Que farei com este azul que me beija, Poética/Grupo Editorial.
