segunda-feira, 12 de abril de 2021

O outro és tu


 

Entra no poema pela porta que range e estremece

e não perguntes por ti.

Pergunta antes - quem está aqui pisando

este chão que piso?

 

O Eu é amarra. Não entres no poema

por esse lado. Dar-lhe uma forma por ti, para ti em nada te acrescenta.

Se insistes em procurar-te

não digas Eu que é inútil.

Pergunta apenas - quem me chama?

O poema fala.

Dir-te-á que nada tens a dizer de ti ao outro.

Sossega, pois - o outro és tu.


Lídia Borges

(imagem Pinterest, s/ ind. autoria)